quinta-feira, 11 de outubro de 2018

DAQUI A CEM ANOS




Cordel baseado em trechos da crônica
Atento à delicadeza da vida”, do Frei Betto 
(que tive acesso via whats app).

Para Claudio Vereza.



                        Na jornada para dentro
                        Da subterrânea mente
                        Revolver o chão canteiro
                        E esperar pela semente
                        Terna, pura, indescritível,
                        Que Deus deixou para a gente...




Diz o poeta da prosa
(Que aqui cito com rigor ─
O filósofo Frei Betto)
Que o incontestável amor
É sempre terno; é eterno...
E que o Outro é o fundador
Da mais certa identidade;
Semente que sai da flor.

E que daqui a 100 anos
Toda pressa será só
Inútil mudez no tempo ―
Porque o Tempo não tem dó ―
Seremos só deslembranças;
Corpos mudos; puro pó...

Findo um século seremos
Bactérias, o fermento...
Flor num campo sem colheita...
Flauta na boca sem vento...
Transmutada natureza...
E do réptil, alimento...

Nós temos bilhões de anos
Nesse transmutar, imersos.
“Eu existo, coexisto,
Subsisto em Universo”
Diz o poeta da prosa;
Eu confirmo aqui, em versos.

De fato, na entropia
Não existe um outro plano:
Logo, ao pó retornaremos ―
Átomos, matéria nano... ―
Ao morrer seremos gotas
Indistintas do oceano.

Mas, então, o que fazer
Ante a certeza do fim?
Recatar ansiedades
Ao se cuidar de um jardim
Pois a pressa é dos que morrem
Sem se anteverem capim.

Enxergar delicadezas
Da vida sempre a florir
Antever, daqui a cem anos
Uma criança a sorrir
Por ter colhido uma flor
No que sobrou do existir.

        (No recôndito do espírito
        Tudo, tudo é liturgia:
        A janela aberta ao vento...
        A manga que doura o dia...
        O mistério do momento
        Que o verbo se faz poesia...)

Olhar para nuvens prenhes
Se o corpo se faz deserto...
Esperar pela semente...
Ser canteiro descoberto...
Pois, exceto Deus ― morada
Terna do amor ― e mais nada
Dura pra sempre, decerto.

Paulo Robson de Souza
Da série Poesia Todo Dia! 22.1.2018


quarta-feira, 5 de setembro de 2018

CIRANDINHA DA MARIPOSA




Autores: Adriano Praça (melodia) e 
Paulo Robson de Souza (letra). 
Intérpretes: Angélica Jado Chagas (solo), 
Mariana Arndt e Carol Marques (coro).




Tem bichos que dependem
muito dos cheiros que sentem.
O olfato para eles
é como os olhos da gente.

Nem todos têm nariz...
Para por fim ao problema
os insetos, por exemplo, 
sentem o cheiro nas antenas.

O “rei” em perceber
o cheiro (ou será fedor?)
tem um nome bem real: 
mariposa-imperador.

Se vai se acasalar
o macho sente a parceira
a duas léguas de distância
mesmo se pouco ela cheira.

Porque é preciso um par
para poder cirandar,
no céu, procurando a fêmea,
meia volta ele vai dar.


(clique na imagem para ouvir)



Do livro
Animais Mais Mais” — música, poesia e muito mais (com CD encartado)
Paulo Robson de Souza, Editora Sterna, 2011


A SEGUNDA MORTE DO CAVALO PANTANEIRO






Reprodução de imagem de vídeo





Triste incêndio.
Dos mais tristes que assisti.
Porque leva nacos do coração da gente, de tantas gentes, de tantas gerações
De tantos países…
Da “Eva brasileira” calcinada não falarei
(Pois Janet colheu palavras certeiras e límpidas
Para seu poema A Última Morte de Luzia).
Das libélulas do Luiz Onofre Irineu de Souza não falarei, para não sofrer mais.
Nem dos cocares
E outros objetos ameríndios pretéritos, irrecuperáveis.
Nem (falarei) da morte dos outros
20.000.000
Testemunhos materiais depositados no Museu Nacional.
Tesouros desses que o dinheiro não paga
Pois que eram parte da nossa história, dos nossos primeiros povos,
Eram marcas da evolução de nossos bichos e plantas,
Da nossa ciência;
Eram a cristalização, aos nossos olhos, do tal “valor incalculável”.  
Mas (de coração partido!) preciso falar do “meu” cavalinho.
Nosso Equus vandonni. O cavalo de Vandoni*.
Salvo alguma milagrosa providência que desconhecemos, também virou cinzas o único fóssil do que eu carinhosamente chamava (nas palestras para a criançada) de "o verdadeiro cavalo pantaneiro", já que esse “Écus” viveu há 18.000 anos ou mais, na região onde hoje se localiza Corumbá, enquanto que a raça “cavalo pantaneiro” é muito mais recente: descende de animais desgarrados das tropas trazidas pelos colonizadores espanhóis a Assunção.
O cavalo de Vandoni tinha quase o tamanho de uma capivara. Diferentemente dessa, imagino, devia ser colorido, saltitante e corredor, como (deveriam ser) todos de sua família.  Dele – e graças a ele – fiz poema dos mais queridos pelas crianças entre os do meu repertório, talvez até pelo título convidativo, Montando Versos.
Infelizmente, o único testemunho material que tínhamos desse cavalinho serelepe – um crânio tomado de inquietudes ferruginosas do rio Paraguai, de onde foi retirado em 1974 pelo pescador Jerônimo Borges dos Santos – e os demais itens agora calcinados, não eram meramente peças de museu. Eram sentimentos.
Da série Poesia Todo Dia!

Paulo Robson de Souza - 3.9.2018



__________________

* Nome científico em homenagem ao Dr. Gabriel Vandoni de Barros, diretor do Museu Regional de Mato Grosso que doou o material descoberto ao Museu Nacional em dezembro de 1974, segundo a página Dinos Virtuais http://www.latec.ufrj.br/dinosvirtuais/catalogo/equus_vandonii.html

terça-feira, 28 de agosto de 2018

ESSE FRIO METAL




Melodia: Zeca do Trombone
Letra: Paulo Robson de Souza
Harmonização: Mestre Galvão



(Introdução: E  Gb6   Am9   B9#  E9   B7b9)


E9
Inerte e mudo, esse frio metal
   Gb6                      
Deitado em um case sepulcral,
          Am9   Am6
Para ter vida,
             B9# B7b9
Um sopro me clama.

E
Meu beijo quente no frio bocal
Gb6                          G6       Ab6
A inspiração (sopro divinal)
     Am9        Am6  
E a campana a vibrar
         B9#           B7b9
Lhe devolvem a vida, afinal.

        E9
E então
Gb6         Ab6
O milagre se fez
      C#m/E
Nunca mais
               Bm6/E      E9
Me separei do amigo.



(solo de trombone: A7 Am7  Abm7  Db7b9 
Gb6 Gbm7 F7#9)


E9
Desde então foi um carnaval
Gb6
Manaus, Campo Grande e Montreal
Am9                  Am6 
Em San Francisco, em Austin e Madrid,
      B9#            B7b9
No Cerrado e no Pantanal


E
Foi então
Gb6      G6   Ab6
Milagre:
       Am9     Am6
Desse som
                B9#    B7b9             
Não mais me separei.


E
Música
Gb6          G6  Ab6
Trombone
            Am6  B9#  B7b9
Sempre pra mim
             E       B7b9    E     E9     E 
Meu grande amor.


E9
Era uma vez esse frio metal...
______________________________


(CLIQUE NA IMAGEM PARA OUVIR)

https://www.youtube.com/watch?v=sNpp7cljeZs


sexta-feira, 24 de agosto de 2018

COMO O JABUTI VENCEU O VEADO NA CARREIRA


1.            COMO O J


Baseado em conto tradicional amazônico
e obra de Luis Câmara Cascudo. Martelo agalopado 
dedicado ao poeta repentista Patativa do Assaré (1909-2002).







Procurando um capim, seu de comer,
um veado encontrou um jabuti.
Perguntando ao quelônio em tupi,
descobriu que buscava o de beber.
Gozador e querendo esmorecer,
o veado falou: “não acredito
que consiga ir ao rio com esses cambitos
tão curtinhos, tão lentos e tão tortos...”
Jabuti respondeu: “eu não me importo
pois, num páreo, sou eu o favorito”.

O veado, com raiva desmedida,
orgulhoso de suas pernas longas,
disse: “vamos parar com essa delonga.
Amanhã apostemos uma corrida.”
Assumindo uma estratégia definida
o pequeno animal disse ao veado:
“Amanhã de manhã! Está marcado!
Combinemos um fácil desafio ―
Quem primeiro chegar ao grande rio,
grande atleta  será considerado.”

Em seguida, na mata, o jabuti
reuniu seus amigos ― aguerridos
jabutis ― todos muito parecidos.
Cal-ma-men-te  lhes disse: “resolvi
enganar o veado no porvir.
Se coloquem escondidinhos na beira
desta mata ao rio Grande, numa fileira.
Fiquem quietos, pra que ele não nos veja.
Amanhã, na largada da peleja
não darei nem um passo, uma carreira.”

Dominando a função de planejar,
Yuatí  lhes falou “será assim:
logo após Suaçu chamar por mim,
o da frente então lhe responderá
(quem ficou para trás se calará).
O veado ― que se diz invencível ―
pensará que sou rápido, intangível.
O ligeiro animal, de tão confuso
rodará mais que porca em parafuso
e, cansado, dirá: Como é possível?

Dito e feito. Valeu o planejado.
Na partida, Jabuti falou assim:
“Correrei bem distante do capim
pois à mata estou acostumado”.
O veado falou: “Tá combinado.
No capim o meu rumo é natural.”
Já na mata, o pequeno animal
avisou aos amigos do início
da corrida com este artifício:
balançando a folhagem de um pau.

E correndo, indo ao paranaguaçu,
o veado, ao gritar U’i Yuatí
(que em tupi quer dizer “Ó jabuti!”)
logo à frente escutava: U’i Suaçu
(Ó veado!) e, de novo, U’i Suaçu...
O veado, no fim fraco e perdido
atirou-se num tronco e foi vencido.
Os amigos, na mata, festejaram
a vitória que, juntos, planejaram
nesta história que ouvi em tempos idos.


Paulo Robson de Souza


sábado, 23 de junho de 2018

O CÃO SEM PLUMAS DE DEBORAH E JOÃO




Para Deborah Colker e companhia; para Yara Medeiros;
em memória da professora
Tania Mara Simões do Carmo
(que me ensinou os caminhos do manguezal).





Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

"O Cão sem Plumas" (1950),
de João Cabral de Melo Neto










I.           Nascente
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Rio nascido é coisa sonhada pela chuva;
gestado pelo chão morno que abriga radículas púberes
(pois que solo glabro não rebenta).
Rio que pulsa vem de olhos
plantados no palco e nas serranias.
Rio que pulsa brota de olhos opacos
(luz em caminho contrário).

No palco, sombra e silêncio lutam com seus opostos;
harmonizam e se alternam. Dançam a vida; o que da vida
sobrou.

Treze corpos treze almas nascem do pó primordial
feito mamulengos assoprados pelo que se cria.
E descem o proto rio. E se tornam rio
(sonhando desembocaduras).

Tristura não tem cor; gastura é som extraviado
que me arrepia os dentes sugere o espetáculo
que me peja de rios jururus.


II.         Amphi
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Dança e luz em movimento.
Juntos: imagem plana e matéria que ocupa espaços.

Planuras se curvam sobre corpos eles próprios, tela e
anteparo.

Jias percorrem o palco da vida em busca d’água.
Diálogo ora surdo, ora ensurdecedor
de jias, cururus; luzes, sons; movimentos e matéria;
lama e alvuras;
tábuas e tablado.

A maestria do cinemato-
gráfico
e a exatidão do
corpo
sedimentar.


III.       ’Y
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A artéria da terra é, também,
caminho de gentes sobre ygaras.
Outrora: vivenda de capivaras
(kapibara ‘y-pe
sob moribundo tronco tupi).

Fala por si o rio,
gota a gota esvaindo-se
nos detritos nele acumulados.

Clama(m).


IV.      Estio
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Ante a aridez do ar
(rio seco no céu),
a epiderme da terra
e a pele cafuza
padecidas; craqueladas.

Mato branco de nascente é quase pó
e a gente que nele vive chora a falta de rio
por nascer.


V.        Queima
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O inadmissível:
a morte de um rio; a pele descamada se rasgando
em meio ao verde frescor.

O inconcebível:
calcinação da própria vida; o aborto da cor.

Um espectro (da gente trincada) mirando a cacimba
sem reflexo, sem eco,
sem água azul.


VI.      Trama
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A folha a palha a trama
o homem-palha
a fuligem...

Canavial há de ser alegoria para treliças que confinam

o olhar.


VII.             Retrocessão
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Acaso e descaso largados na ygara
descem o rio rumo ao salobro lugar.

Sonho denso
do que não suportou

ser homem mastigado; sonho desistido.


VIII.           Uçá
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Larvas famintas pedem estuário: sentimento vário,
querem ser caranguejo. Uçás grávidos querem ser mar.

Homem-caranguejo-uçá
cada vez mais
anda para trás.

Dentro do caçuá:
incontinência da música; feitura da própria prisão.

Tempo para trás.

Na tela grande, Assis presente(s).
Assaz competente(s)
em cuidar e
retroagir.


IX.       Mangue
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Rhizophora é cortina do que não se vê e daquele que vê.
Rhizophora mangle: copas em palafitas
de cerne duro, vermelho e firme  
escora de aspirações.

É fio que entrelaça
vidas: craca, caranguejo, peixe, camarão,
gente e a matéria borbulhante que os formou.




Lama fértil é massa podre e seca,
sem o mangue.
Mas a mordaça
imposta ao rio
mata a planta, mata a teia, mata o homem que espreita.

A casca sangra.
Olhos divisam.


X.         Chama
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Caranguejos de longas, espadadas puãs
(com elas) chamam fêmeas, demarcam toca.

Chamam a maré que não vem, fluxo interrompido por
matacães.

Chama-marés batem no tablado o ritmo do
desespero.


XI.       Pena
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Garças encardidas sobre troncos cansados de mirar o nada.

Nessa luta inglória,
garças são o chão:
são as árvores:
plumas das árvores:
pena do cão.

Ignorância
é a palavra que resta do aniquilamento.


XII.                   Claustro
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Rewind:
o caçuá-palafita;
o sulfeto da lama impregnando a pele;
o molambo;
o desejo preso na própria armadilha.

De novo: o mocambo perscrutado
por um homem-caranguejo;
homem mastigado.

Homem que se repete em todos os pobres
cantos do mundo.


XIII.            Angústia
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Um barco, foi o que vi. Um barco a qualificar;
a carregar o degredo
(a lama na face: máscara ou armadura?).

Porque a foz
é a geografia de costas para o continente.

No palco, um fio de luz da esperança
de Colker. De João. De Assis. De Lirinha e Jorge. Do Carmo. De mim.

De todos os rios do mundo.

Porque rio é coisa sonhada pela chuva.


Paulo Robson de Souza

(da série Poesia Todo Dia 2018)



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