sábado, 3 de agosto de 2019

QUEM NÃO SENTE A DOR ALHEIA...



                                                                                                                   Para L.L.



Faça de conta que a sua
esposa se indignou,
na rua, com uma injustiça...
E o algoz interpelou.
Por defender a razão,
lhe levaram em camburão
feito um cão que se enraivou...

Ou suponha que sua filha,
ao cumprir o seu dever,
foi algemada por quem
devia lhe proteger.
Sem oferecer perigo,
lhe impõe vexante castigo,
puro abuso de poder.

Imagine um neto seu,
vendo tal afrontamento:
resolveu filmar a cena
do soldado truculento...
Teve o fone confiscado!
Foi também preso e algemado,
ferindo o regulamento.

Foto: autoria não identificada. Fonte: www.midiamax.com.br

Veja um pai desrespeitado
pela polícia que acha
que seu patrão é o governo...
Que não sabe que a “borracha”
é paga com seu salário!
Seu suor!   um tributário
do rio de impostos e taxas!

Imagine também essa
absurda situação:
sua honesta e honrada mãe
que luta pelo seu pão! ,
por ser mulher, pobre e preta,
ao discordar de uma treta,
vai direto pra prisão...


Faça de conta, também,
que você tem o poder
por ser O governador
de fazer e desfazer;
de punir qualquer desvio
profissional, doentio
mas não o faz, não quer ver...

Dessas considerações
de nos ver no semelhante,
cabe, sim, admitirmos
de modo pleno e incessante,
o que É e NÃO SER ético...
Dizer de modo sintético ,
que somos... Simples instante!

Os direitos são pra todos!
Mas todos somos sujeitos
à maldade, à truculência...
Quando o insensível sujeito
não sente a dor na sua pele,
o egoísmo o impele
a aceitar o malfeito.

Cabe uma constatação
(não é fato descabido!):
são direitos DOS humanos!
Não são de clãs ou partidos!
Nunca é demais dizer: “Ó,
no fundo somos uma só
espécie: ‘Homem sabido’ ”.

Quem silencia, concorda!
Dá vida e voz ao tirano.
Quem não vê O TODO em tudo,
vive em si, no ledo engano...
Quem não sente a dor alheia
e com o vil não se aperreia,
não sabe o que é ser humano!

Paulo Robson de Souza

__________________

Adendo (8.8.2019)

Cordel musicado pelo Mestre Galvão
Intérprete: Bia Blanc

Clique na imagem para ouvir














#nãoàviolência
#truculenciapolicial
#policiamilitar
#abusodeautoridade

sábado, 22 de junho de 2019

RIO DA PRATA




Letra: Paulo Robson de Souza




Calcários lhe dão gosto e limpidez 
calhaus, em si, não vão rolar
(vão crescendo!)...  
Tiribas  voam sobre o leito azul
- cafofo borbulhento do jaú...
Os peixes deixam um rastro de pitanga, a cor
que fisga os olhos do mergulhador...

Flores carmesins,
tufas, lagostins
ornam o seu calmo escoar...
Joia de Jardim,
águas correm em mim ...
Rio da Prata: o ouro do lugar



Não cabe à justiça interpretar 
seu jeito próprio de nascer
(bem difuso!)
A prata que reluz ao bacharel 
no subsolo cumpre outro papel... 
Não pode a ganância exterminar
o rio  que é vida e guarda o luar. 

Lama no jardim...
Drenos no capim...
O veneno oculto a se espalhar... 
(ai, ai, ai)
Ao fim do festim 
dó terei de mim
quando mais um rio se acabar...

Quando mais um rio se acabar...



(Clique na imagem para ouvir)


#riodaprata #serradabodoquena #Jardim #carste #karst



  

domingo, 16 de dezembro de 2018

DAR À LUZ A RAZÃO (Maiêutica)




                            Melodia: Zeca do Trombone
                            Letra: Paulo Robson de Souza




(CLIQUE NA IMAGEM PARA OUVIR)





Procure o que você não sabe,
em vez de transmitir o que julga saber.
O reconhecimento da própria ignorância
é o primeiro passo para a busca da verdade.
E a verdade, escondida em cada um de nós,
só é visível aos olhos da razão.
Conhecer-se a si mesmo é conhecer Deus dentro de si.
Procure-se!


Adaptação (PRS) do pensamento atribuído a Sócrates
(469 ou 470 a.C. - 399 a.C.)





Preciso me encontrar...
Dar à luz a razão
Ao me esfacelar
Me implodir rente ao chão
Na escuridão
No
Fim...
Só...

Deixar
As certezas pra lá
Pra saber: duvidar!
O saber no doar
O que possuí...
No
Fim:
Nu.

Tudo o que sei
Reparti
Nada sei
Descobrir meu Eu.

Tudo o que dei
(Descobri!)
Eu não dei:
Não era meu.

Preciso me encontrar...



#Sócrates
#Filosofia
#pensamentosocrático
#maiêutica

sábado, 10 de novembro de 2018

NOMES PRÓPRIOS E COMUNS




Para as crianças do Centro de Educação Infantil
Andréa Pace/Aquidauana,
projeto Identidade e Autonomia,
professora Fabiana Aparecida Vaz Benevides.






O que será nome próprio?
Eu pergunto à criançada
Estudante do Pré I
Que está toda animada
Para fazer um projeto
Sobre essa “nomaiada”.

Atenção Luiz Arthur,
Mikaely e Ezequiel
Luiz Felipe, Emanuelly,
Natália, Natanael,
Me respondam rapidinho
Ao ouvirem este cordel:

Aquidauana, a cidade
E os seus próprios sobrenomes
São nomes comuns ou próprios?
E o que dizer desses nomes:
Desse CEI Andrea Pace
E o da Escola Erso Gomes?

Os nomes Luan, Lohayne,
Maria Eduarda e também
Os dos seus lindos colegas
Luiza, Darlan... mais quem?
Breno, Kaio, Cristiano,
São nomes próprios também?

Por que o nome da semente
E da planta “jatobá”
É nome comum, enquanto
Que “Fazenda Jatobá”,
“Rua Jatobá” são próprios,
Quando nomes de lugar?

Corumbá é nome próprio?
É nome próprio Ladário?
Será que são nomes próprios
“gato”, “feijão” e “fichário”?
Citem uns comuns e próprios
Listados no dicionário...

É nome próprio famoso
A morraria Urucum!
Mas “colorau”, o corante
Que vem da planta “urucum”
Embora sejam importantes,
Não são próprios: são comuns.

São, também, comuns os nomes
De quase todo objeto.
E os nomes “autonomia”,
“identidade”, “concreto”,
 Viram próprios (em maiúsculo)
Se são nomes de projetos.

Pois bem, meninada linda,
Pra conversa não alongar
Digo que são nomes próprios
Digo sem pestanejar:
“Fabiana”, “Vaz”, “Benevides”
(da professora exemplar!)


Nesta estrofe encerro os nomes
Próprios dessa criançada:
Sofia, Tiago e Wesley.
Turminha maravilhada
Por desenvolver uma proposta
Pela Faby, abraçada!

Assim, também, é meu nome:
Paulo Robson (o Paulinho),
Que reside em Campo Grande
E lhes manda esses versinhos.
Cá pra nós: na minha escola,
Eu era o tal...
“Baianinho”.


Paulo Robson de Souza
26.10.2018


Frutos e sementes de jatobá.


sexta-feira, 19 de outubro de 2018

SOBRE A NATUREZA DO TEMPO


(em parceria com o poeta Sidnei Olívio*)




Lento: 
Tempo. 
Vida. 
Lida. 


Tempo.... vida... LIDA... tempo... 


ÁGUA. 
Lago. 
Hidro. 
Vida. 


Vidro: 
Tempo ido: 

Anidro. 


Cada minuto que passa 
no tempo que se percebe 
cai no lago que se bebe 
e no tempo se disfarça. 
Se pusermos uma mordaça 
n’água que de si escorre 
nem assim o tempo morre 
ou sequer se evapora... 
– O tempo morre na hora 
em que a vida se estilhaça? 


A vida encerra o momento 
– tempo de reproduzir, 
lida de restituir, 
nas vidas, o pensamento... 
Cada segundo: um momento. 
Cada momento segundo 
indo pro lago fecundo 
é, na verdade, o primeiro 
filho do pai derradeiro 
– eterno renascimento. 


A vida é como uma vidraça 
que brilha... guarda... que embaça... 
Quem sabe seja uma taça 
sorvendo o tempo que passa... 
Ou talvez uma barcaça 
de vidro sobre o profundo 
lago que contém o mundo... 
O que sei vale por ora: 
o tempo escorre na hora 
em que a vida se estilhaça. 


Veio da água 
a vida veio 
e até hoje se mantém 
um veio d água 
veia via vida 
contém 
a vida ávida de água 
a água cheia 
cheiro chuva 
de vida. 


O tempo é um cometa ultra-sônico 
relâmpago diário/pêndulo a jato 
difícil manter-se nas horas 
sorver os minutos 
gota 

gota 
na maré da vida. 
Num ritmo alucinante 
os anos passam, a idade... 
término-início tão inseparáveis 
que é quase impossível distinguir 
aurora e crepúsculo 
neste sonho real. 

10 
Quem pode medir o tempo 
pela régua do destino? 
Quem, senão o autor divino 
pai das águas e do vento 
criador do firmamento 
fabricante genuíno 
de um sistema pequenino 
que rege todo o universo 
comprovado em prosa e verso 
chamado renascimento? 

11 
Quem medirá o calor 
e a luz do quinto elemento 
que percorre o firmamento 
dos olhos do trovador 
no sopro do criador 
– fabricante genuíno 
de um sistema pequenino 
(molecularmente imerso) 
que rege todo o universo 
contido em todo menino? 

12 
Os tempos que estão na Terra 
são água em outros planetas. 
É no núcleo dos cometas 
que o tempo em gelo se encerra. 
Liquefaz-se quando enterra 
seu semblante na latência 
dos mundos em coexistência 
– eterno derramamento. 
O tempo e os seus comprimentos 
dependem da consciência. 

13 
É na soma de momentos 
que o tempo se faz senhor. 
O desprezível vapor 
que desce do firmamento 
é soma e desprendimento 
preenchendo o mais vazio 
leito com seu poderio, 
derramando-se em três planos. 
A gigantez do oceano 
depende dos tortos rios. 

14 
São gotas d’água que marcam 
o tempo dentro da gente 
e a seca e também a enchente 
e a alegoria da arca. 
O tempo é o ente que abarca 
tudo e todos em um maço, 
feito a matéria do abraço. 
Sei que em cada nascimento 
repete-se o grão momento: 
tempo-vida... tempo-espaço. 



_______________

* Poema sem tempo-espaço (em construção). 

Autores:
Paulo Robson de Souza, Campo Grande, 1998 / 2002.
Sidnei Olívio, São José do Rio Preto, 2002. 

Publicado originalmente em Usina de Letras (julho de 2002)



quinta-feira, 11 de outubro de 2018

DAQUI A CEM ANOS




Cordel baseado em trechos da crônica
Atento à delicadeza da vida”, do Frei Betto 
(que tive acesso via whats app).

Para Claudio Vereza.



                        Na jornada para dentro
                        Da subterrânea mente
                        Revolver o chão canteiro
                        E esperar pela semente
                        Terna, pura, indescritível,
                        Que Deus deixou para a gente...




Diz o poeta da prosa
(Que aqui cito com rigor ─
O filósofo Frei Betto)
Que o incontestável amor
É sempre terno; é eterno...
E que o Outro é o fundador
Da mais certa identidade;
Semente que sai da flor.

E que daqui a 100 anos
Toda pressa será só
Inútil mudez no tempo ―
Porque o Tempo não tem dó ―
Seremos só deslembranças;
Corpos mudos; puro pó...

Findo um século seremos
Bactérias, o fermento...
Flor num campo sem colheita...
Flauta na boca sem vento...
Transmutada natureza...
E do réptil, alimento...

Nós temos bilhões de anos
Nesse transmutar, imersos.
“Eu existo, coexisto,
Subsisto em Universo”
Diz o poeta da prosa;
Eu confirmo aqui, em versos.

De fato, na entropia
Não existe um outro plano:
Logo, ao pó retornaremos ―
Átomos, matéria nano... ―
Ao morrer seremos gotas
Indistintas do oceano.

Mas, então, o que fazer
Ante a certeza do fim?
Recatar ansiedades
Ao se cuidar de um jardim
Pois a pressa é dos que morrem
Sem se anteverem capim.

Enxergar delicadezas
Da vida sempre a florir
Antever, daqui a cem anos
Uma criança a sorrir
Por ter colhido uma flor
No que sobrou do existir.

        (No recôndito do espírito
        Tudo, tudo é liturgia:
        A janela aberta ao vento...
        A manga que doura o dia...
        O mistério do momento
        Que o verbo se faz poesia...)

Olhar para nuvens prenhes
Se o corpo se faz deserto...
Esperar pela semente...
Ser canteiro descoberto...
Pois, exceto Deus ― morada
Terna do amor ― e mais nada
Dura pra sempre, decerto.

Paulo Robson de Souza
Da série Poesia Todo Dia! 22.1.2018


quarta-feira, 5 de setembro de 2018

CIRANDINHA DA MARIPOSA




Autores: Adriano Praça (melodia) e 
Paulo Robson de Souza (letra). 
Intérpretes: Angélica Jado Chagas (solo), 
Mariana Arndt e Carol Marques (coro).




Tem bichos que dependem
muito dos cheiros que sentem.
O olfato para eles
é como os olhos da gente.

Nem todos têm nariz...
Para por fim ao problema
os insetos, por exemplo, 
sentem o cheiro nas antenas.

O “rei” em perceber
o cheiro (ou será fedor?)
tem um nome bem real: 
mariposa-imperador.

Se vai se acasalar
o macho sente a parceira
a duas léguas de distância
mesmo se pouco ela cheira.

Porque é preciso um par
para poder cirandar,
no céu, procurando a fêmea,
meia volta ele vai dar.


(clique na imagem para ouvir)



Do livro
Animais Mais Mais” — música, poesia e muito mais (com CD encartado)
Paulo Robson de Souza, Editora Sterna, 2011