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sábado, 24 de outubro de 2020

ACADÊMICOS UNIDOS DO RIO (Samba da Piranha)

 

Autores: 
Marco Antonio Carstens Mendonça / Paulo Robson de Souza 

Intérprete: Áttila Gomes



(Clique na imagem para assistir ao videoclipe)





(Clique aqui para acesso à letra)

(Spotify: clique aqui)

sábado, 22 de junho de 2019

RIO DA PRATA




Letra: Paulo Robson de Souza




Calcários lhe dão gosto e limpidez 
calhaus, em si, não vão rolar
(vão crescendo!)...  
Tiribas  voam sobre o leito azul
- cafofo borbulhento do jaú...
Os peixes deixam um rastro de pitanga, a cor
que fisga os olhos do mergulhador...

Flores carmesins,
tufas, lagostins
ornam o seu calmo escoar...
Joia de Jardim,
águas correm em mim ...
Rio da Prata: o ouro do lugar



Não cabe à justiça interpretar 
seu jeito próprio de nascer
(bem difuso!)
A prata que reluz ao bacharel 
no subsolo cumpre outro papel... 
Não pode a ganância exterminar
o rio  que é vida e guarda o luar. 

Lama no jardim...
Drenos no capim...
O veneno oculto a se espalhar... 
(ai, ai, ai)
Ao fim do festim 
dó terei de mim
quando mais um rio se acabar...

Quando mais um rio se acabar...



(Clique na imagem para ouvir)


#riodaprata #serradabodoquena #Jardim #carste #karst



  

terça-feira, 18 de julho de 2017

VITÓRIA-RÉGIA

           

“Uma flor é uma flor,
uma rosa é uma rosa”
mas a vitória rosa
é régia.

Uma flor que um dia é branca
feminina flor
refletindo a luz do dia.
Masculina flor noturna
agora é rosa
como o fim da tarde
de uma longa espera.

Regendo o tempo,
o fluxo do rio...
 — Determina as cheias
ou a cheia lhe insemina?

Uma flor que me ensina
que o branco
contém o rosa
e todas as cores do dia.
Que a noite
contém o dia.

Uma flor que é menina
e menino brincando n’água.


                      


               
(Do livro Síntese de Poesia,
Paulo Robson de Souza, 2006)
 


___________________________

 


Com folhas circulares flutuantes que chegam a ultrapassar dois metros de diâmetro, a vitória-régia é a maior planta aquática do mundo. O nome científico, Victoria amazonica, é uma homenagem à rainha Vitória, da Inglaterra, e porque a planta é típica da Amazônia   embora ocorra também na porção norte do rio Paraguai, até o município de Corumbá, MS, onde a foto abaixo foi feita. 

Dependendo da região, os ribeirinhos a conhecem por aguapé-açu (do tupi, aguapé grande), forno-d'água e milho-d'água, porque produz sementes arredondadas, comestíveis,  ricas em amido que lembram  milho de pipoca; e cará-d'água, porque tem um rizoma 
comestível que lembra o cará (é quase do tamanho de uma bola de futebol e possui reservas nutritivas  que permitem à planta rebrotar após o período de seca).

Embora seja monoica, ou seja, possua os dois sexos no mesmo indivíduo, para evitar a autofecundação  as partes femininas localizadas na flor tornam-se férteis uma noite antes das masculinas; nesta fase inicial, feminina, as pétalas têm coloração branco-creme, e na noite seguinte, a fase masculina, as pétalas ficam róseas.  


A fecundação é um fenômeno muito curioso, do ponto de vista ecológico: ela é feita por um besouro amarelado (
Cyclocephala castanea) que, ao comer as partes florais, leva o pólen das partes masculinas de uma flor velha (foto) para as estruturas femininas da flor recém aberta, realizando a polinização. Mas quando ele visita a flor recém aberta (feminina), esta se fecha e o besouro fica aprisionado até o outro dia.

Embora aparente ser totalmente flutuante, a vitória-régia é fixa ao substrato:  suas gigantes folhas são, na verdade, sustentadas por um longo pecíolo cujo comprimento aumenta à medida que o nível da água sobe, uma adaptação à alternância de ciclos de cheia e seca. 

Saiba mais:

Plantas Aquáticas do Pantanal
, livro de Vali Joana Pott e Arnildo Pott (Embrapa, 2000) 

e artigo
Morfologia da flor, fruto e plântula de Victoria amazonica (Poepp.) J.C. Sowerby (Nymphaeaceae), de Rosa-Osman et al, 2011 (cliqu no link para acessá-lo).

domingo, 20 de novembro de 2016

ACADÊMICOS UNIDOS DO RIO (Samba da Piranha)

Autores: Marco Antonio Carstens Mendonça / Paulo Robson de Souza 
Intérprete: Áttila Gomes


(Clique na imagem  para ouvir)






(com CD encartado), 2011

(capa aberta)

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Acadêmicos Unidos do Rio
               (samba da piranha)

Música: Marco Antonio Carstens Mendonça
Letra: Paulo Robson de Souza




Eu não sou feroz assim.
Eu só dou umas mordidinhas.
Não me culpe se outras mil
têm essa mania minha.
Não sou tão feroz assim, viu?
Eu só dou umas mordidinhas. 
E além disso, meu compadre,
era a vaca mais fraquinha...

Eu não quero mais sofrer,
não pretendo lamentar.
Tenho que me abastecer,
sem remorso me fartar.
Chega de tanto blá-blá,
de ter fama de vilão,
porque tudo o que eu faço
é comer o meu pirão.

Eu não sou feroz assim...

Essa tal ferocidade
que dizem que eu devo ter, 
na verdade, é uma vontade
coletiva de comer.
São milhares de mordidas
para a vaca se acabar
– pouco importa essa má fama,
deixa o povo acreditar... 


Eu não sou feroz assim...

sábado, 17 de novembro de 2012

MEU PÉ DE LARANJA LIMA... DO MANGUE

Manguezal de Ilhéus ao pôr-do-sol. Foto: Paulo Robson de Souza



Esta moda aconteceu
entre a Ilha das Caieiras
e o importante manguezal
que margeia  Goiabeiras,
na cidade de Vitória
onde hábeis paneleiras
pintam suas obras de barro
com corante de primeira.
Não sei se vi ou senti 
esta história verdadeira.

Um canoeiro se enfiou
entre as raízes magrelas
pra pegar casca de mangue
para deixar as panelas
recém-saídas do fogo
negras, bronzeadas, belas.
Repetia assim o gesto
das primeiras caravelas
derrubando o pau-brasil
em troca de bagatelas.

Sem sequer pedir licença,
com um porrete macetava
um sofrido  pé de mangue −
que cuidados inspirava.
A vermelha e fina casca
parecia que sangrava.
Machucava a coitadinha
toda vez que precisava
não se importando se a árvore
logo se recuperava.

Em silêncio o mangue ouvia
uns sons distantes, bonitos –
atabaques e casacas,
chocalhos, palmas e apitos –
congadas que davam graças
ao mouro São Benedito.
Junto ao som das porretadas
e o som doído, aflito
do seu sangue vegetal –
quem ouviria o seu grito?

Feito a famosa história
“Meu Pé de Laranja Lima”
o mangue falou gemendo:
— Assim você me dizima!
Vê se aprende a respeitar
a rara matéria-prima.
Se me der algum cuidado
e um prazo que não me oprima
sobrarão galões de tinta
pra pintar uma obra-prima!

— Sobrará mais energia
para eu fabricar comida
para camarões e peixes
que no alto-mar residam,
berbigão e  o caranguejo
que deixam a gente nutrida.
— Todo o manguezal é creche
que sempre dará guarida
para toda a filhotada
da rica teia da vida.

— E se o bom fruto do mar
vira a mais fina comida
dê graças à energia
dessa seiva colorida
e às raízes que me escoram
e que lhe dão acolhida.
— É por isso que lhe digo:
se romper uns fios, na lida,
deixe a teia, meu caboclo,
sou a Árvore da Vida!

Ao ouvir esse lamento
o caboclo compreendeu
que quem destrói seu sustento
cospe em prato que comeu,
mata o futuro e o presente
vira peça de museu.
E que o mangue é a obra-prima
que a natureza nos deu.
E tudo o que foi contado...

...foi o que aconteceu.



Do livro
Síntese de Poesia (Paulo Robson de Souza, Editora UFMS, 2006)



quinta-feira, 1 de novembro de 2012

OS REIS DO PEDAÇO




Para Rubem Alves



Era uma manhã das de sempre
num capão do Pantanal
ou talvez na Bodoquena...
– não, não sei bem o local.
Era uma manhã confusa:
meio rara, algo banal.

O sol se partia em mil
nas gotas frescas do orvalho
as árvores bocejavam
balançando os longos galhos
a taboquinha era flauta
e os grilos eram chocalho.

Era farta primavera:
abelhas pra todo lado,
frutos davam a sua carne,
flores jorravam melado...
Troncos cuspiam filhotes:
patinhos pretos, dourados.


Como diria o Chicó
que mora dentro de mim,

não sei bem como é que foi,
eu só sei que foi assim

que o Caburé exclamou
dentro de um alto angelim:


– Ai, que bom espreguiçar,
sestear depois que caço...
Morar numa cobertura
de um tronco, ser um ricaço...
Como é bom, mesmo miudinho,
ser o tal... rei do pedaço.

O Falcão-peregrino retrucou:

Eu sou o dono do pedaço!
Fora! Xô, seu... pigmeu.
Sou letrado, caburé,
no continente europeu.
Olhe bem pras minha garras...
repare que o rei sou eu.

Entra o Pica-pau-rei:

– Eu também tenho direito
sobre essa tosca madeira
pois cheguei aqui primeiro.
Não estou pra brincadeira.
Se vocês quiserem briga,
eu derrubo a mata inteira!


–  Quando nem buraco havia
comecei a trabalhar
nessa vil madeira morta
para o oco iniciar.
Sou do desenho animado,
mereço me instalar.


– Eu tenho um bico alvinegro,
a mais vermelha das penas,
lindos olhos, asas verdes...
Sou artista de cinema!
O buraco é meu, pois sou
a dona da Bodoquena.


– E daí, qual é o problema?
Parem de falar besteira.
Sou a maior e a mais linda
das araras brasileiras.
Trago o azul do mar nas penas
e o sol nas minhas olheiras.


– “Peraí”, gente. Qual é?
Esse oco é meu. Tem mais:
antes de 1500
já era o rei dos quintais.
Além disso, eu sou cantiga
do Vinícius de Moraes.


– Alto lá! Êpa! Tem gente!
Eu reformei este ninho.
Botei fora o caburé.
Enxotei o gaviãozinho.
Daqui não saio. Reparem
que eu sou um nobre vizinho.


– Cal-cal-calma lá! Nesse oco
botarei meus dois ovinhos.
Afinal, tenho olhos verdes
neste rosto tão branquinho...
Trago o azul, tenho o dourado
da Seleção Canarinho.


– Chega pra lá, sua amarela!
Cruza de águia! Monstrengo!
Esse oco é meu! Só meu.
Chega de história e de dengo.
Sou o rei dos céus. Mereço
pois sou forte, sou Flamengo.


– Sou o dono do buraco
meu povo amado, minha gente,
pois sou bom de bico, e até
ao comer, planto as  sementes.
Não bastasse isso, inda sou
amigo de ex-presidente.



O urutau que a tudo via
com sua sábia paciência
gritou para a bicharada:
– Que falta de complacência.
Há lugar pra todo mundo
quando se tem consciência!

Com seus olhos semi-abertos
para a luz, bico empinado,
Urutau falou, de um galho,
dormindo meio acordado:
– Essa briga é porque o mundo
está desorganizado.

– Cada qual com seu papel!
Todos têm o seu valor!
Todos são nobres e sábios.
É bonita toda cor!
Não existe tolerância
quando não existe amor.

– Organizando a bagunça:
buriti pra canindé,
pro pica-pau: bocaiuva;
angico pro caburé.
E pra grande araraúna,
manduvi será chalé.

– E se o tronco for o mesmo
disputado por vocês
numa mesma primavera,
é preciso sensatez.
Se não chegou a sua hora,
então, que espere a sua vez.

– Ou então, façam o seguinte:
quando o tempo for passando,
de pata em pata – ou de bico –,
que o ninho vá se moldando
segundo a necessidade,
de acordo com seu tamanho:

– Vem, primeiro, o pica-pau;
em seguida o tronco ampara
a nobre maracanã...
Tantos caberão, tomara:
o tucano, o urubu
e, por fim, a grande arara.

– Vamos combinar uma coisa?
Façam a reprodução
em períodos separados,
com farta alimentação...
Cada qual no próprio tempo...
Troncos à disposição.

Em meio a tantos doutores
de olhos grandes, acurados,
foi o urutau quem viu,
estando de olhos fechados:
– Há lugar pra todo mundo
num mundo civilizado!

– Discriminar é julgar,
antes que o tempo revele,
a história de cada um
e a cultura que se expele.
Não se conhece por fora
o que está dentro da pele.

– Há lugar pra todo mundo:
branco, preto, azul, dourado...
Sempre haverá um cantinho
no ambiente equilibrado.
Há lugar quando, pra todos,
direitos são respeitados.

Vendo, enfim, que a boba briga
encontrou um bom final,
o tal “pássaro-fantasma”
dos índios, o urutau,
voltou a dormir, esguio,
disfarçando-se de...
        pau.


•  •  •


Como diria o Chicó
que mora dentro de mim,
não sei bem como é que foi,
eu só sei que foi assim
que uma corriqueira história
encontrou seu próprio
                                                        fim.


Os Reis do Pedaço - Detalhe de aquarela de Ligia Zeolla Vieira

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Notas: 

Clique no nome da ave para obter informações sobre sua biologia diretamente do WikiAves (inclusive fotos e sons).

Cordel originalmente publicado no livro Poesia Animal (2003), com Sidnei Olivio 


Apresentado em 13 escolas de Campo Grande por atores amadores (alunos dos cursos de Ciências Biológicas, Artes e Pedagogia/UFMS, sob direção de Paulo Paes), dentro do projeto A Poesia É animal na Rede Estadual! (2004),  realizado com apoio do FIC/MS.

Excertos publicados na Ciência Hoje das Crianças, n°  214 (especial Biodiversidade), julho de 2010. Ilustrações de Rogério Coelho.