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domingo, 10 de abril de 2022

ATEMPORAL, MEU MAL


― Lucimara aqui é o Paulo Robson como vai você tem um tempinho para me atender estou no Sul não estou conseguindo sacar dinheiro o cartão está bloqueado ― falei assim de supetão, vício do tempo da ficha telefônica, em que um ponto de interrogação determinava ou não a interrupção da conversa (não pela interrogação em si, mas pela resposta que se sucederia à pergunta).

― Professor, o senhor terá de esperar o banco abrir, na segunda... ― falou-me ao celular uma voz doce e calma de gerente atenciosa, jeito de quem acabara de acordar e não acreditava no que estava ouvindo. Pego de surpresa pela impropriedade da ligação, devolvi a gentileza com uma saraivada de mil perdões ai que vergonha meu deus sou perdido no tempo jura que hoje não é sexta-feira desculpe desculpe desculpe ai que vergonha bom final de semana pra você e sua família. E desliguei rapidinho (a ficha caiu). 


01.3.14
Paulo Robson de Souza

Da série Poesia todo dia! (Edição 2014)

domingo, 31 de janeiro de 2021

ANTES QUE EU ESQUEÇA: MONTANHA

 


Guardei um pedaço

De Montanha em mim

(A cidadezinha

– Era uma cidadezinha quando a senti –

A cidadezinha

Do norte capixaba).

 

Havia um circo troncho

Palhaços da melhor estirpe, calhambeque explodindo

Leões,

A trapezista

E a tristeza da partida pela estrada poeirenta

Do circo e do circense que nele morreu...

 

– 1969? Não me lembro bem: moramos nesse lugar ígneo entre 67 e 70 (sou de 61). Aliás, uma das poucas lembranças com fundo musical que tenho: “California Dreams” e o circo trilhando a estrada poeirenta para além do rio...

Carros eram lavados no rio. Caminhões também... Mais que a lembrança da imagem, me vem o forte cheiro de combustível boiando, arco-íris deitado nele (o rio)...

Havia um grande lajedo, nele escrito “Só cristo Salva” e “Casas Cazelli” (juro que não é merchandising!). Nessa casa havia tecidos chinfrins postos em ziguezague sob a marquise, mais enfeitando do que expondo a mercadoria.

Flashes que não me saem da memória, não sei porque, de tão insignificantes: a passagem de uma perua com quatro ou cinco japoneses de óculos, magros e altos indo ao lajedo instalar acho que uma antena (primeira vez que vi pessoas de origem asiática, só outra novidade me foi maior: ver o teco-teco logo após o pouso, que meus amigos diziam ser de papelão). O sangue de um advogado na areia da rua, morto pelo pai da minha colega de escola por causa de desavença de jogo de aposta, corrida de cavalo, algo assim – naquela tarde o sino da igreja soou como nunca e para sempre nos meus ouvidos, e senti pela primeira vez uma tristeza pela morte alheia que eu não sabia explicar... O vizinho cego por uma pedra (ao marretar paralelepípedos de granito) cantando hinos de louvor em um culto...

Outros instantes que nunca me esqueci: a menina morena, magrela e de testa larga (a apelidamos de Testa de Boi Gir, que malvadeza!), essa menina sendo levada à nossa escola pelo pai numa charrete muito bonita, cavalo castanho “esquipando” como quê na nossa rua. Minha mãe voltando tarde da noite da casa do vizinho que tinha televisão, encantada com a chegada do homem à Lua... As meninas da casa da frente ‒ Gilca, Milca, Ilca e mais duas cujos nomes me esqueci, todas atingidas por essa decisão patriarcal de nominar ‒ brincando de “drama” (teatrinho) com minha irmã Márcia na nossa garagem. Minha coleção de maços de cigarro (cheirinho bom!) escondida sob a geladeira a querosene que sustentava um rádio cantando “90 milhões em ação” depois de a população largar a TV da praça em festa, após o Brasil 4 x 1 Itália; a bomba de 500 sendo estourada por um torcedor (tinha esse nome porque era a mais cara de então; só os adultos podiam comprá-la, de tão perigosa).

Do amigo cabeludo e de olhos verdes do meu tio Britto cagando no buraco errado após uma bebedeira – o bidê que eu tanto brincava de alguma coisa com seu chuveirinho ao contrário –, disso eu também não me esqueço. Nem da menina Alba Valéria que morava na casa ao lado e seu irmão Alvinho que, pura malvadeza, o apelidamos de Bufa Torta porque passou a mancar após pisar num caco de vidro. Nem da espinha madura (que eu morria de vontade de espremer) na face da minha querida professorinha Irmã Paulina, nem das músicas que entoávamos em fila no pátio do Colégio Sagrado Coração, sob o olhar cuidadoso da diretora, uma madre de óculos intimidadores cujo nome esqueci: “Desperta no bosque / Gentil primavera / O ar está perfumado / Com flores de manacá / Trá-lá-lá-lá-la Lá-la...”, ou ainda “No Inverno a cigarrinha / Deixou então de cantar / Procurou a formiguinha / Para a sua fome lhe mataaaar”.

Em Montanha desse tempo dormiam cinco a dez toras de madeira no fim da nossa rua, talvez abandonadas por alguma serraria. Nelas moravam as “batixós” (como chamávamos as lagartixas), que vez em quando eram vítimas do nosso “bodoque” feito de câmara-de-ar da melhor qualidade, a tal borracha que não se cansava. O meu irmão Jairo e o inseparável primo Ciro eram os campeões na caçada aos pobres bichinhos que, junto a calangos e algumas rolinhas, proporcionavam-nos deliciosas fritadas, assim como os tizius que fazíamos se espatifarem no muro branco da garagem de ônibus após afugentá-los.

Havia na porta de casa um fícus indiano cercado por quatro tábuas que eram bancos – lembrei-me agora. No quintal, um pé de maçã muito esguio, crescendo no centro de um caqueiro (termo baiano para o recipiente de barro usado para evitar formigas, como se um fosso) e que se recusava a frutificar. E um porco duroc que, de tão grande, meu pai se equilibrava de pé no seu dorso, para se exibir. Havia um viveiro onde eu dava leite aos filhotes de tatu-galinha e cuidava de um coelho alaranjado e da galinha rhodes que Sinhô Mascate me dera. Num canto havia bananeiras onde eu e meus irmãos ficamos seminus, lambuzados de BHC com banha-de-porco, um disparatado tratamento para sarna da época que deve, sim, ter-me deixado sequelas. Em frente à cozinha havia uma espécie de galpão revestido de cimento queimado onde escorregávamos no dia da lavagem, usando para isso água retirada de um poço com bomba manual.

De fato, o ponto de vista é único, intransferível: são dos meus olhos e, certamente, de nenhuma das outras crianças que éramos, a imagem que ficou de uma tarde típica de verão, sol seguido de chuva – casamento da viúva – em que encontramos gatinhos recém-nascidos em uma carcaça de carro abandonada perto do cinema. E é só minha essa lembrança, porque foi em mim que doeu: a matinê que não houve, porque minha mãe não deixou que uma prima grande e de cabelos bicolores me levasse ao cinema – certamente por falta de dinheiro – e eu chorei muito... Como chorei no dia em que meu primo Carlos me sentou sobre a chapa quente do fogão de lenha...

Dessa época não há fotografias, porque a novidade era o tal monóculo que o tempo e os fungos logo se incumbiram de pulverizar os pigmentos depositados sobre o acetato.

Agora vem minha mãe, janeiro de 2018, me dizer que passamos fome por causa do abandono do nosso pai – que foi cuidar de negócios em Linhares, é bem verdade; o pai que era ao mesmo tempo amoroso, devagar, trabalhador, divertido, bruto, sonhador, exigente, esquecido e aventureiro nos deixou nessa situação. Ela me conta da vizinha Dona Regina (de Seu Manoel, segundo me disse) que nos trouxe comida por cima do muro, uma vergonha para quem tivera fazenda no sudoeste da Bahia e uma infância de fartura – própria de quem tem chuva e terra para cultivar. Da grande dívida numa vendinha que funcionava numa espécie de quiosque lá para as bandas do bairro Fundão cujas paredes e as próprias rodas eram de madeira, isto eu me lembro. Mas a história da comida por cima do muro me doeu fundo, doutor.

PRS, 18.1.2018

(Da série Poesia Todo Dia!)


#PauloRobsonDeSouza #poesiabrasileira #poesiatododia #ocacuadopaulorobson  #Montanha #MontanhaES

O CAÇADOR DE PALAVRAS

 


Ontem li A Rosa do Povo. Um Drummond inteiro. Num fôlego a falta de ar é mais intensa que suspiros em bolhas de ar.

Agora em mim um leiteiro baleado existe; uma flor improvável rebrota do asfalto; um vestido e duas mulheres tristes coexistem; a ruazinha de Itabira (ainda) se dá para o mundo...


PRS, 9.1.18, Porto Seguro 

(Da série Poesia Todo Dia)


(Arte sobre foto PRS)



#PauloRobsonDeSouza #poesiabrasileira #poesiatododia #ocacuadopaulorobson #Drummond 

O FUTURO NO PRETÉRITO

 



O espelho ao avesso

É janela para o futuro.

Vejo-me daqui 30 anos.

E o que vejo é insano: não há planos

Nem desejo.

Vejo o medo da inquietude.

Do não discernir, não decidir...

Livre arbítrio é termo bonito

Nos livros.

Para quem

Nada mais tem

De tempo

De axônio

E peptoglicanos

É só um termo bonito: arbítrio.


6.1.18  (Da série Poesia Todo Dia)



(Arte sobre foto PRS)



#PauloRobsonDeSouza #poesiabrasileira #poesiatododia #filosofices


sábado, 10 de outubro de 2020

Música INDO NESSA INUNDAÇÃO

 
(Clique na imagem para ouvir)



(Geraldo Damasceno / Paulo Robson de Souza)


No campo, a crestar 
Um colchão marrom
A igara de cedro dormindo no chão
E o solo, sedento, deixa de respirar
Grilo e palha fazem um coral 
De cricris

Bem longe, no azul, o céu desabou
Desce da serra (o que condensou) 
Para a planura
Caminhando transforma   o caminho, cumprindo um papel 
Faz bem lento pra fazer bem

Vem chegando a água
Um filete miudinho
Cortando os torrões de terra secos 
Uma força pequenina
Vem molhando as folhas
Que estavam muito secas 
E faz outra viagem pra dentro do grão
(Um dia quer ser flor!)

O pipocar 
Das gotas no torrão: 
Plena conversa das nuvens com o chão
Semente túrgida não precisa dormir
Um jurupensém se esgueira no lodo
Saíra azul-turmalina
É   anjo de Deus a se entregar
À divisa do rio com o céu

Vem chegando a água
Um filete miudinho
Cortando os torrões de terra secos 
Uma força pequenina
Vem molhando as folhas
Que estavam muito secas 
E faz outra viagem pra dentro do grão
(Um dia quer ser flor!

E fruto...
E semente...
Recomeçar...)


#Pantanal #músicabrasileira #MPB #cheia






quinta-feira, 2 de julho de 2020

CRÔNICAS DE SÃO LUÍS






C  RÔNICAS DE SÃO LUÍS


Paulo Robson de Souza



   
A Dalva Rego.





1. Olhos de turista
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Olhos de turista furtivo não delimitam
a diferença que há entre os azulejos franceses e portugueses que ornam
os casarões de São Luís.
É preciso guia, alguma geometria, mas sobretudo
parar os lumes, deter o tempo.

Olhos de turista não piscam; e câmaras demais lhes atrapalham o gosto, amofinam
o olfato
(o fato de comer com os olhos).

Turista tem olhos na barriga. E seus ouvidos e poros são como
olhos de coruja:
sentem vibrações. Olhos de ouvir; olhos de tatear com as finas penas.

Foi assim, zoiudo, que senti a São Luís do meu desejo

(nascido na adolescência).



2. Cordial
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Gentilezas desse povo
surgem em borbotões ‒
estribados que são:
não é preciso pedir,
pois a informação vem de pronto
ante a dúvida evidente, eu postado na esquina, olhar ansioso...
(Esperava Márcia e Beth.)

Diante da pousada desconhecida
aguardando a condução
o dono, de prontidão
nos deu bom dia e entrou
para nos trazer três bolinhos de tapioca ‒
e nem fome tínhamos!

Em São Luís, cordialidade
é a exata expressão
da etimologia do termo.



3. Abestalhado
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Na escadaria a placa
“cerveja Véu de Noiva em São Luís só aqui;
a 7,50”.
Corri abestalhado ao balcão
e perguntei se era puro malte e
artesanal...
O rapaz me disse, incrédulo:
não; é cerveja Tal (uma das mais ordinárias)
mas coberta de neve, tão geladinha está.
Sem graça sorri, dizendo dês tá

(sem lhe dizer
que descrição para cerveja
mais bela não há).

Pois a cerveja toda branquinha de neve da foto
Não me sai dos olhos!...



4. Melô do Roteiro Reggae
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(Refrão)
Lampiões elétricos
Bicicleta elétrica
Gente mais que elétrica
Reggae em São Luís

Roteiro Reggae na Ilha do Reggae no Brasil
Parte da Praça Benedito Leite, o professor
Cortejo conduzido pelos dançarinos do Saint Louis
Encanta a lua, as ladeiras, as varandas com calor

(Refrão)

Pelas calçadas vejo alegre a linda expressão
Canções de paz são o retrato da gente gentil
Dos casarões azulejados e plantados de verdor
Melôs ressoam pela noite do Bacanga ao Anil

(Refrão)

A radiola toca pedras, faz o povo agitar
As bandeirolas no Mercado fazem São João dançar
Museu do Reggae é conquista desses corações
Dançando reggae coladinhos no Palácio dos Leões

 *  *  *

É pedra no chão
É pedra no ar
Que bonito ver o meu amor dançar
É pedra no chão
É pedra no ar
Sem a rasteirinha do chão tirar

É pedra o chão da rua
Colonial
E a radiola
Sensacional
Sobre a bicicleta
Da gente elétrica

Do reggae em São Luís



5. Vontades
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Cidade úmida, vários casarões largados,
vejo minijardins crescendo sobre azulejos
e telhados
e frestas onde a poeira dorme.

As plantas que deitam raízes nesses casarões têm vontade.
As pessoas têm vontade. O ar é propício.

E assim vão vivendo pessoas e plantas
sob o ar úmido da cidade equinocial.



6. Contraditório(s)

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O Mercado Central é lúgubre; agônico; um
claustro.
No dizer local, esse está no meio da casa.

Há beleza no feio, se bem observado ‒ sempre há! Mas aquele mercado
é feio feio.
(Embora o ludovicense há de me dizer: “e tu és besta besta”.)

E contraditório:
tem o melhor suco de cupuaçu que já experimentei: leitoso,
macio, odor de manhãs orvalhadas.
E frutos amazônicos que me encheram os olhos.
Isso me basta.



7. Vultos
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Às luzes da noite
a serenata que passeia
entre vultos
que assombraram
e espoliaram
essa terra
e a gente anônima que nela vivia.

A história escrita pelos vencedores ‒ sempre.

História não contada,
inda assim é boa de se ouvir e ver.



8. Afinação de tambores
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A afinação dos três tambores de crioula é ritual.
Primeiro se acende a fogueira.
Tambores deitados em semicírculo, peles voltadas para o fogo,
é hora de lhes aplicar alguns tantans para encontrar o tom.

Minha irmã Márcia me cita composição gravada por
Alcione, que diz
“Quem ainda não viu
Tambor de ‘criola’ do Maranhão?
Afinado a fogo tocado a murro
Dançado a coice e chão?”

Nunca havia reparado tais versos
que agora têm verdadeiro significado para mim.

Versos ali, vivos, diante dos meus olhos...



9. De cor
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Tambor de crioula:
espasmo de cor.
Cord.
Acorde.
Coreiro:
coração.

Pulsar
e
quasar.

Na Fonte do Ribeirão
o coreiro Barrabás[1] me fala da busca do pau oco no mangue,
escolhido com sabedoria e zelo.
Olhos do coração lhe guiam ‒
faz de cor (cordial!)
o ofício que aprendeu com o vento.

‒ A cena me trouxe à lembrança nossa visita à Casa do Tambor de Crioula quando, de prima, vi tambores, coisas e adornos magistralmente descritos. Vi pessoas, por fotos e in vivo (representadas pela moça bonita que nos apresentou esse universo). E agora, ali, o museu vivo, diante dos meus olhos...



10. Três pedidos
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Eu pergunto ao homem
sentado na calçada, displicente,
se posso ver o ensaio (do boi no sobrado em frente).
Ele me responde naturalmente:
“Se é ensaio não pode!”

Adiante a arte na pessoa afável
de voz aveludada
tece pulseiras e faixas
de ornar cabeça.

Foi com argumento e
encantamento de cobra
que lhe fiz posar para a foto
com Beth e Márcia
pois na placa ele dizia
“Fotografia?
não tente; não insista”.

Novo leitor de Guilherme de Almeida,
ousei pedir: Sotero, abra meu Caçuá
(não sem antes encomendar uma peia de linhas coloridas
pra minha viola sonolenta
que é para encantar os olhos
de ouvintes desatentos...).



11. Quando conheci o Novilho dos Lençóis
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Quando eu estive passeando em São Luís[2]
Eu não sabia que iria me encantar
Com esse Boi que é a mais pura animação
O mais belo batalhão[3]
Belas índias a dançar...
Contagiado por só ver gente feliz
Um cavalinho dá pinotes pelo ar
Mãe Catirina (satisfeita!) é simpatia,
Pai Francisco é alegria!
Os vaqueiros a cantar...

(Refrão)
Novilho dos Lençóis:  [Ééguuaas!] [4]
Vi na saia a branca cor[5]   [Mermão!]
Dos Lençóis do Maranhão...
E a paz cobriu, em manto[6],
O meu grato coração.

[Marminino!]

(repete o refrão mas só com instrumentos mais as interjeições entre chaves)

No palco a locutora fez revelações
Eu não sabia que iria me encantar...
Emocionada, ela disse no Ceprama
O ticão que ela ama
Sua mãe e o seu lugar:
A história, o povo da antiga Miritiba
Abençoada São José do Periá
Lugar que hoje tem o nome de um poeta...
Ela cumpriu sua meta:
Todo o povo entusiasmar!

(Refrão)

[Segunda parte]

O bumbo conseguiu corações sincronizar
O banjo em mim tocou a mais linda harmonia
O passo das areias eu tanto via
Nos caminhos dos Lençóis, no bater do maracá.

E o grave tambor-onça fez-me arrepiar
O sax me soprou a mais linda melodia
O trompete e o trombone eu também via:
Eram o vento nos Lençóis assoprando sem parar.

Paz no meu coração!
Melancolia, corra para lá!
Bumba meu Boi nasceu no Maranhão
E no meu peito ele veio morar... (2x)

[A partir daqui o andamento cai. Cantado quase sussurrando.  Leve fade out]

(Essa toada vai para os brincantes
Os amantes da cultura,
Do Novilho dos Lençóis.
Se fosse vivo, Humberto de Campos
‒ Pleno de literatura ‒
Se juntava à nossa voz.)



12. Quando o invisível desata os olhos
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Com a chegada a São Luís me veio a impressão
comum ao brasileiro
de que o bairro feio
fica sempre escondido aos olhos de quem vem.

Passado o tempo, descobri que olhos de turista furtivo – por ser furtivo –
não delimitam
invisibilidades:
os contrastes se enredam
à cultura do lugar...

São Luís
‒ ah, São Luís! ‒

São Luís do meu desejo
de voltar...



Da série Poesia Todo Dia!, edição 2018.







[2] Toada
[3] Conforme Rogério Ribeiro das Chagas Leitão - A Musicalidade do Bumba-boi da Ilha (2018). https://tedebc.ufma.br/jspui/bitstream/tede/2353/2/Rog%C3%A9rio%20Ribeiro%20das%20Chagas%20Leit%C3%A3o.pdf
[4] Procurando por interjeições típicas, a jornalista Dalva Rego, em comunicação pessoal, me afirmou (agosto de 2018) que as interjeições “éguas!” e “égua!” são muito peculiares do Maranhão, assim como “mermã!” (Minha irmã! Minha Nossa!), “marminino!” (Mas menino!) e “arre!” (uma variação do “Arre Égua!”).
[5] Na apresentação que vi em São Luís (22 de julho de 2018), a saia do Novilho era branca. Pensei que fosse uma cor fixa e, por isso, na primeira versão dessa toada, descrevi o branco como cor típica do boi, e em seguida fiz uma associação com a cor da areia dos Lençóis Maranhenses. Mas a Dalva me corrigiu, na mesma mensagem acima: “A saia, assim como o couro do boi, muda ano a ano. Varia de acordo com as homenagens. Este ano [2018], a homenagem foi aos santos católicos. Ano que vem, aos grandes amos da região Munim/Lençóis” [amos são os cantores das músicas do bumba-meu-boi].
[6] Para metrificar, usei “Cobriu em manto” propositadamente, conforme Olhos de Chinesa (2ed), de Eugénia Dobrões (localizado via books.google) e  http://paschoalprimo.blogspot.com/2018/09/esperanca.html





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