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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O METABOLISMO DAS COISAS III



Em dias de chuva a madeira morta, com saudade de seivas, ganha uma sobrevida e inspira a água do céu.

*   *   *

Pedras rolam de alegria, feito crianças, em dias de enxurrada.

*   *   *

Nas primeiras chuvas os quintais bafejam actinomicetices. Preferia desconhecer este fenômeno microbiológico (há muito descrito pela ciência) e, somente, sentir o cheirinho de terra – mesmo estando distante dela. Inclusive para não ter de usar este palavrão...

*   *   *

Das coisas, os muros velhos e brancos são os que mais se beneficiam com as gotas que caem do céu. Fotossintetizam.

*   *   *

Troncos mortos, revividos pela umidade, se coçam por inteiro ante o caminhar dos mixomicetos em sua pele vegetal.


Paulo Robson de Souza
20.3.14 Da série Poesia Todo Dia

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Clique nos títulos abaixo e leia mais sobre o tema

sexta-feira, 10 de julho de 2015

O METABOLISMO DAS COISAS


Nas manhãs douradas
o metabolismo das paredes
é retomado ao extremo.
Paredes nuas, então, ficam loucas
na sofreguidão.


Paulo Robson de Souza
13.3.2014
Da série Poesia Todo Dia

sábado, 22 de março de 2014

O METABOLISMO DAS COISAS IV




Para Luiz Bernardino
e Paulo Boggiani


Solos respiram; troncos mortos respiram; folhas secas molhadas, mais ainda. O mundo invisível cumprindo seu papel.

                                                     * * *

O tempo passando no couro esquecido no tempo se torna verde-gris.

                                                    * * *

Estátuas falam. Marcas escavadas na bancada laterítica falam. Por bocas e frestas cavernas ofegantes falam. Pedras dizem coisas que não sabemos ler.

                                                    * * *

No tempo acelerado dez mil vezes mil, rochas mudam de lugar. Movimento pétreo. A respiração ofegante do que se decompõe.

                                                    * * *

O tempo marca de verde tijolos adormecidos. Baixo metabolismo, beta clorofila, nitrogênio fixado... coisas de muro que só sabe reter.


Paulo Robson de Souza





22.3.2014

segunda-feira, 4 de junho de 2012

YGUYNÃ


Lançamento dia 5 de junho (terça), às 10 horas, na Feira Agroecológica da UFMS
(corredor central), às 10 horas.

Projeto: Sabores do Cerrado e Pantanal/UFMS
Coordenação/projeto editorial: Marilia Leite
Editoração: Lennon Godoi
Editora UFMS

domingo, 15 de abril de 2012

REPARANDO MELHOR, A NATUREZA, DE ALGUM MODO, RESPIRA POESIA



Vendo o esterco, ninguém lhe dá valor
Se não tem visão clara do amanhã.
Bactérias — gigantes sendo anãs —
Reelaboram a matéria no calor.
Adubada, a raiz põe-se ao labor,
Faz crescer a roseira com anemia.
É no esterco que tudo principia
Dando à flor a cheirosa sutileza.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Vendo o esterco, tem gente que vomita
Porque nele não vê utilidade.
É o esterco promessa de bondade
Junto à microbiota que o habita.
Ao se ver transbordando uma marmita
Dá na gente uma imensa alegria:
Os micróbios transformam a “porcaria”
Em fartura, enfeitando a nossa mesa.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Quem já viu caracóis escorregando
Pelos troncos arfantes, sonolentos
E esperou que marcassem o chão — visguentos —,
Nem notou todo o tempo lhe marcando.
Esperar sem saber que está esperando,
Respirando o forjar da calmaria...
Imagino que isso bastaria
Pra inspirar, dos moluscos, a nobreza.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

O poeta que tem no nome o barro,
Pescador de palavras, caracóis
Respirando as ausências dos paióis
Sobre o pó dos quintais nos quais me esbarro.
Na firmeza do verbo é que me agarro.
Não com a força que o mestre agarraria
Pois retira o calor da lama fria...
Pois que extrai os pulsares da aspereza.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Nos jardins submersos de Bonito
Algas, lama, dourados, grandes folhas,
Caramujos e musgos... cospem bolhas. 
Naturais, são aquários infinitos.
Mundos d’água gasosa — e inauditos —
Nos inspiram poemas, fantasias.
Respirar dentro d’água é alegria
Para os que vivem imersos na pureza.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Quando os gases se entregam, inodoros,
Ao propósito máximo de um ser,
Oferecem a chama pra poder
Produzir descendentes vencedores.
Se o invisível transmuta-se nas cores
Quando a luz faz brotar policromias
Vegetais sustentando a zoologia,
Toda a vida animal se vê acesa.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Turbilhões de suspiros leva o vento
Pela noite, varrendo o continente.
São lamentos que exala o solo quente
No processo de desaquecimento.
Para o mar de incerteza — o pensamento —
Dissolver-se no sal da maresia
Pra se cristalizar na cantoria,
No galope da aérea correnteza.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Num galope os alísios crespam a areia
Retornando às entranhas da restinga
Revirando a folhagem da caatinga
Deixam livres os gases sob as teias.
Neste ir e voltar fica mais cheia
A barriga do ar que faz folia
E, que em vez de engordar mais, quem diria,
Quando quente é a essência da leveza.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Frente fria é, no chão, intempestiva,
É matéria gasosa viajante.
Quente brisa na altura estonteante
É o bafejo da lida coletiva.
Trocam os gases de toda a massa viva.
Ao fazerem, no céu, estripulias,
Reciclando a matéria e a energia,
Essas duas confirmam uma certeza:
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Quão poético o mar, os seus corais... 
Inspirando sonetos e canções
Nas Pessoas, Caymmis e Camões,
Castro Alves, Vinícius de Moraes.
Que seria do mar de minerais
Se não fosse a micro-refinaria
Que respira, no mangue, a geologia
Sulfurosa biota à lama presa?
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

A coxia quebrando o vento, o enfado
Na Bahia de jeitos tão diversos
Horizontes longínquos e dispersos
Das planícies disformes de Brumado...
Avistando, inspirado, embasbacado
A colina pequena — a tal coxia —,
O poeta Caetano assim diria:
“Tudo é lindo, mais lindo que a lindeza.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia...
                                                           [ou não]”



No horizonte se avista, deslumbrante,
A chapada arenítica azulada.
Imagina-se, ao fim de uma escalada
Ver minérios azuis, irradiantes.
Ao subi-la, percebe-se, ofegante
Um prodígio da microbiologia:
São os líquens, profícua parceria
Respirando, tingindo as redondezas...
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Vinda a morte, eis que a força do calor
É deveras sentida pela ausência
Dele próprio: o calor é a essência
Do viver. É o termômetro do amor.
Quem respira nem pensa: dá calor.
Sem calor, toda a carne expiraria!
E não é a ausência, mas a fria
Mão inábil, a fonte da tristeza.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

E, por fim, há no verso marcação,
Há um ritmo, um pulsar melodioso.   
É um corpo de texto harmonioso
Que provém do bater de um coração.
E, se pulsa, então há respiração.
Sendo verso sem pé não correria.
Sendo corpo, sem ar pereceria
No papel esquecido sobre a mesa.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Vendo o esterco curtindo sob o céu
Vê-se o fim, vê-se meio e o princípio
O infinito, o vivido — o particípio —,
O passado e o futuro do papel.
Na batida inspirada do cordel
O universo — todinho — pulsaria
Pelos versos da linda cantoria
(Sendo o próprio: Palavra, Luz, Beleza).
            Reparando melhor... a natureza,
            Ofegante, respira poesia.



(do livro “O Casamento dos Buritis e outros cordéis”. Sterna, 2005) 

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Você sabia?

Este “Reparando melhor” e o cordel “Se é verdade que tudo é relativo” (clique aqui para conhecê-lo), foram construídos segundo a modalidade martelo agalopado, uma forma fixa de composição poética típica da Literatura de Cordel.

O martelo agalopado apresenta versos metrificados com 10 sílabas, mas com acentuação obrigatória na terceira, sexta e décima sílabas (são essas tônicas que dão o efeito “galope”, como grifado a seguir: É no esterco que tudo principia / Dando à flor a cheirosa sutileza); as estrofes têm 10 versos e as rimas são fixas (geralmente, o esquema é ABBAACCDDC). Especialistas afirmam que o termo “martelo”, neste caso, nada tem a ver com a ferramenta, mas com a pessoa que estabeleceu o decassílabo na literatura, o professor de literatura francês  Jaime Pedro Martelo (1665-1727).

A graça de escrever ou cantar um martelo agalopado é justamente dizer algo interessante dentro desse esquema rígido, uma tradição herdada da literatura oral europeia. Não é à toa que as pelejas entre os repentistas são chamadas de desafios. Se escrever um martelo já é difícil, imagina improvisar, diante do desafiante e de uma plateia atenta! É por isso que tanto admiro esses artistas populares.

Saiba mais:



PRS
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Obtenha gratuitamente, para impressão em formato A4, a íntegra desse cordel e dezenas de sugestões para o desenvolvimento de atividades em sala de aula, com ênfase no ensino de ciências/.biologia. 
Basta clicar aqui:

a natureza respira poesia roteiro_evento Rio.pdf

Outra opção: 


Licença Creative Commons
O trabalho REPARANDO MELHOR, A NATUREZA, DE ALGUM MODO, RESPIRA POESIA de Paulo Robson de Souza foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

sexta-feira, 23 de março de 2012

O MAR (55 trovas populares)


1.


2.
A tormenta entra no cio
e dança com o vento frio
quando o mar tem arrepios
provocados pelo rio.

3.
Todo dia, após o açoite
do vento no sol vazio,
todo mar, todas as noites
é o sono de todo rio.

4.
A poesia é desperta
quando o mar é penetrado
– na nua praia deserta –
pelo rio quente, cansado.

5.
Há profunda calmaria
no ventre da brisa quente
quando o mar, doce, vigia
o leito do rio dormente.

6.
O mar espanta a tristeza,
desmancha as coisas ruins
e refaz toda beleza
que se desprende de mim.

7.
O mar fertiliza a História
enche cada dia de glória
pois tempera a humanidade
desde as primeiras cidades.

8.
Se o mar não está para peixe,
fique tranquilo. Então deixe
que se faça da poesia
diferente pescaria.

9.
Mar: fecundo precipício
fincado na escuridão.
Líquido alimentício
da vida em evolução.

10.
Mar: fecunda superfície
deitada na claridade
que transforma as imundícies
em verde longevidade.

11.
É o mar cadente véu.
É o brilho que descerra
o céu no espelho da Terra
– fim e princípio do céu.

12.
É o mar eterna fonte
dos poetas aguacentos
de rumos, ondas... sedentos
de infindáveis horizontes...

13.
É o mar céu debruçado
pelo teu deslumbramento.
É o anil precipitado
por sensível pensamento.

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[Seção Os sentidos]

[Gustação]

14.
Sedento da água salgada
neste planalto cerrado,
bastaria-me uma pitada
para eu ficar mareado.

15.
Com fome de litoral
neste Planalto Central,
busco o sal nas lanchonetes
das ondas da internet.

[Olfato]

16.
Deitado na terra quente
penso que minhas narinas
são poços secos, carentes
do cheiro azul das marinas.

17.
Folhas caídas na lama...
Cheiro bom de maresia...
Vive a sulfídrica cama
da síntese de poesia?

18.
O gás de ácido nome
corrói a matéria viva,
ou é o tempo que consome
a matéria reativa?

19.
O vento leva a lembrança
do mangue reelaborando
a matriz da substância
viva, que vai... caminhando!

20.
O vento é o rastro do dia,
o espaço-tempo na via...
Faz piruetas com o ar,
muda o tempo de lugar...

21.
O vento é o rastro do dia.
É o espaço translocado
para o vácuo que seria
por outro espaço ocupado.

22.
O vento é um grande avião,
muda o espaço de lugar:
leva, ao mar, seco sertão
e, ao sertão, frações de mar.

23.
O céu é matéria errante
– apesar das evidências.
Erra quem não tem ciência,
erra quem vive distante...

[Tato]

24.
O tempo molda o momento
segundo a necessidade.
Fibra em morno sedimento
deixa o tempo sem vontade!

25.
Traças descrevem o momento
do tempo e do temporal
nas folhas do sedimento
que cultiva o manguezal.

26.
Feito um íntimo carinho,
a luz dourada descerra
a pele verde da terra
e o vento alisa o marinho...

27.
Noite mal dormida. A vaga
tocando a praia que traga.
É ressaca. É o arrepio
da onda em manhã de frio.

28.
Tateio as curvas da praia
deste rio Aquidauana...
Quase em terras paraguaias
sinto em mim... Copacabana!

[Visão]

29.
Queria ter uma janela
neste céu do Pantanal
para dar uma olhadela
no verde do manguezal.

30.
Nas fazendas alagadas
o saudoso ribeirinho,
com as pupilas mareadas,
busca cavalos-marinhos.

31.
Descortinando a janela
que mostra um seco caminho,
negras retinas são tela
carente do azul marinho.

32.
Vejo nas secas pupilas,
neste tórrido altiplano,
poços de luz – clorofila –
dentro do azul oceano.

33.
Olinda, se você for
num mergulho Salvador
às pupilas dos meus olhos...
cuida os Recifes. Abrolhos.

[Audição]

34.
Com o ouvido ressecado?
É meu desejo melhoras:
recomendo ouvir um fado
nas azuis ondas sonoras.

35.
O derradeiro sentido
a morrer é a audição...
Quero morrer no estampido
grave da arrebentação!

[Sexto Sentido]

36.
Sob a cama de aguapés
deste Mar dos Xarayés
pressinto um pétreo oceano,
morto há seiscentos mil anos.

37.
Há, sempre, portos seguros
depois do horizonte escuro
quando se busca o incontido
clarão do sexto sentido.


________________________________________

[Seção Música]

38.
O mar abriga tesouros
que só compram o que é sublime:
é o primeiro logradouro
das cantigas de Caymmi!

39.
Certas peças musicais
são uma gema, água-marinha:
preciosas, imortais,
já nascem prontas, limpinhas...

40.
Há pérolas musicais
que, de natureza rústica,
nascem em modestos corais,
dentro de conchas acústicas...

41.
De tão nobre, a “Princesinha
do Mar” foi presenteada
com uma pérola criada
por nosso nobre Braguinha.

42.
É no mar que nascem os fados?
Na despedida do amado?
Tão pouco sei! Investigue
a voz de Amália Rodrigues!

43.
Foi do mar que veio a vida,
da evolução comprida:
eras, mil tons, nascimentos,
feito Miltons Nascimentos.

44.
Nasce o mar no pensamento
da cantiga popular,
pela voz do Nascimento,
“quem me ensinou a nadar...”.

45.
Tom procurando paisagens!...
Tom eternizando o Rio
que é mar/avilha, miragem...
a paisagem no cio.

46.
A praia refaz suas cores
nos adornos populares
cantorias e tambores
das congadas de Linhares.

47.
O banzo do mar se acaba
quando as praias capixabas
vestem-se de cores, jongo,
ligando o Brasil ao Congo.


________________________________________

[Seção “Eles passarão. Eu, passarinho”.]

48.
Quisera saber domar
um galope à beira-mar...
Sem esforço elaborar
poesia popular...

49.
Quisera saber voar...
Frente à grandeza do mar
com asas de passarinho
fazer versos miudinhos...

50.
Quisera saber toar,
improvisar meu mundinho,
pôr um martelo miudinho
na cadência deste mar...

51.
Quisera fazer versinhos
com a pena do passarinho
Patativa do Assaré,
na brancura da maré.

52.
Que meus versos mareados
– que se querem agalopados –
apeteçam-se do ninho
do poeta-passarinho.

53.
Disse o bardo do além-mar,
nos seus versos tão precisos:
é preciso navegar
– sim! –, viver não é preciso.

54.
Disse Mário, do Guaíba:
passarão. Eu, passarinho.
Respondeu-lhe rapidinho,
do Assaré: eu, Patativa.

55.
Era a mini patativa
do Assaré – um rio pequeno...
Tornou-se gaivota... altiva...
rumo ao oceano pleno. 


(2002)

sábado, 17 de março de 2012

MICROS II


Para Siu Mui Tsai




Bolores
antecipam o tempo
do fim.

* * *

Actinomicetos
fabricam cheiros
de chuva nova.

* * *

Leveduras
fermentam alegrias:
pão e circo.

* * *

Na casca da uva fresca
leveduras entoam:
― Dias melhores virão.

* * *

No abóbora podre
branca floresta
de marrons odores.

* * *

Na água verde-clorofila
heliozoários
são o próprio sol.
(fevereiro de 2005)




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Sobre haicai ou haiku, consulte:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Haiku

domingo, 11 de março de 2012

MICROS


 Para Elke Bran Nogueira Cardoso


Cianas bactérias pastam
o nitrogênio inerte
nos poros ― frestas de solo.

* * *

Bom mesmo é ser quimio-
 sintética bactéria
que tira leite de pedra ― sempre.

* * *

No seio do folíolo da azola,
entre falenas,
dorme a anabena.

* * *

Raiz e fungo, micorrizando,
mutuamente se devoram e se nutrem
― relação íntima.

* * *

Esporos são bactérias
dormindo em berço esplêndido
de cristal.

* * *

Cocos em cacho de uva.
Anomalia semântica ou acento agudo disfarçado?
Mania estafilítica.

* * *

A solução está na raiz:
no feijão,
vagarosos rizóbios constroem possibilidades.
Raiz redonda.

* * *



Quando a chuva acaricia o solo,
cogumelos erigem
das hifas excitadas.


(março de 2005)