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domingo, 28 de janeiro de 2018

CONFLITOS PESSOAIS




Conflitos são guerras não de pessoas, mas de pontos de vista.

* * *

São tantos conflitos internos que deve haver, de fato, separação entre os hemisférios cerebrais.

* * *

Maior conflito do gênero masculino – diário conflito – é o que existe entre o córtex cerebral e as ordens bioquímicas que emanam do cromossomo Y, briga mais conhecida por razão versus emoção. Genes egoístas abriga o Y, conforme disse um especialista!

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Entre a geladeira e o espelho, um vendaval.

* * *

Entre a alegria da companhia de amigos engraçadinhos e o namorado ciumento, fica-se com a solidão.

* * *

O tempo-relógio é tão imprevisível quanto o tempo-atmosférico.  De uma hora para outra, muda-se tudo, e o que seria eternidade mais parece um raio.

* * *

Entre o ócio e o trabalho, há uma terceira via: trabalhar com uma cervejinha do lado.

* * *

O incômodo torna-se mais e mais incômodo quando a roupa quer andar sozinha de tão suja, ensopada por um calor desgramado, e a barriga se dá à distensão diante da falta de assunto. Entre a sauna úmida e a cachoeira, o desespero.


Paulo Robson de Souza
19 a 21.11.2014 (da série Poesia todo dia!)

terça-feira, 16 de maio de 2017

PRÉ-TEXTOS VIII (BOCA SECA DE ASCO)



Acordei com a boca seca de asco, olhos inchados de pesadelos e uma ausência de temeridades em todos os poros. Hoje não estou nem para mim.

*  *  *

        Há um bentevi
        no meu quintal
        que todo dia me chama.
        Parece que clama
        por uma tigela d’água.
        Qual de nós terá maior sede?

*  *  *

        Afinal não entendo
        Qual a do passarinho
        Que alimento,
        Dou todo dia um pote de água fresquinha
        Mas que não me nutre
        Com um ninho.

*  *  *

Borboletas transgridem o vento.

*  *  *

Borboletas tingem as flores de escamas coloridas.

*  *  *

Cerquei-me de mentiras, mergulhei nas intrigas em revista neste meu modorrento sofá. Notícias escorrem por entre meus dedos, tão pesadas estão. Sim, hoje é domingo. Quisera ter um pé-de-cachimbo.

Paulo Robson de Souza
27/02/2005

Da série Poesia Todo Dia!

PRÉ-TEXTOS VII (SOBRE A INTUIÇÃO)




Tinha cochilado no finzinho de tarde e minha filha me achou “com cara de bravo”. Algo muito estranho, ter pesadelos durante um cochilo. Agora só me resta dormir.

*  *  *

Há algum tempo li um desses artigos acadêmicos. Argumentava sobre a tendência que os pesquisadores têm, à medida envelhecem, de substituir parte do pensamento científico por atos mais relacionados à intuição.  Penso ― penso? ― que neurônios envelhecidos tendem a desacreditar o sentido racional que certas coisas nos oferecem, passam a duvidar das certezas e a se cansar das interrogações. Em outras palavras, a senilidade torna dois sacos cheios: o próprio, e algum tipo de “saco mental”, aquela região cerebral que costuma mandar o mundo às favas toda vez que um idiota, um pretenso inteligente ou o pior tipo de gente, o arrogante, abre a boca inoportunamente.
Minha intuição me diz que hoje não devo sair de casa.


Paulo Robson de Souza
28/02/2005

Da série Poesia Todo Dia!

NA BUCHA



Necas de pitibiribas é uma daquelas expressões que nunca soube o pleno significado, mas que sempre as empreguei com reverência e zelo.

*  *  *

Ser aeroplano é o sonho de todo teco-teco.

*  *  *

Guimarães disse que viver é correr perigo. E não viver? É o tédio. A dor silenciosa da amofinação.

*  *  *

O arrepio é o soluço do corpo.

*  *  *

Nunca é nada, ausência que jamais considerarei.

*  *  *

Hoje colhi sorrisos dentro de minha boca.

*  *  *

Machado de Assis, um bruxo? Mais que isso: um pervertedor de orações fáceis. Um luxo. Um esdrúxulo, in plenis verbis. Plenitude linguística.

*  *  *

Cansei das desafinações das operetas cotidianas. Busco a ópera diuturna nas entrelinhas da baixa comédia.

*  *  *

Quer conhecer o amigo? Contrarie-o e o espere sentado, com cara de quem amanheceu com vertigem ― a do tipo objetiva, que é para aumentar a dramaticidade.


10/3/05
Da série Poesia Todo Dia! (sem cortes)








segunda-feira, 15 de maio de 2017

IMPRESSÕES




Ter a consciência do próprio corpo, de modo tão racional, não é bom pra mente. Não sabê-lo causa menos dor.

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Definitivamente, um abraço é melhor que um amasso. Principalmente um abraço de seis meses de atraso ante o amasso de ontem.

*   *   *

Não, não é poesia: ouço o meu coração cada vez mais. Coisa de biólogo metido a besta que desenvolveu o sentido de se auto-auscultar. Ou de poeta cansado.

*   *   *

Pimenta, mesmo no fiofó dos outros, arde meus olhos. Desgraça alheia não tem graça nem rima bem.

*   *   *

Quando minha amiga nipônica me abraçou hoje, perdi meu oriente.

*   *   *

Ninguém me contou, nem eu mesmo a mim ― pode isso, Fernando? ―, mas estou desconfiado que a poesia é meu projeto de fuga.

*   *   *

Devo ter um nervo ligando o queixo diretamente ao estômago, pois a cada soco do dia o reflexo é imediato: da mucosa jorra ácido clorídrico de balde. E, também numa infeliz associação direta, debalde como folhas de boldo.

*   *   *

De tão estressado, até toque de telefone me embrulha o estômago e para a respiração. Tou pensando em romper ligações. Principalmente com o nervo vago.




6 de junho de 2005
(da série Poesia Todo Dia - sem cortes)


terça-feira, 11 de abril de 2017

PRETÉRITOS



Alegria de fotógrafo é roubar a cena. Já os atores olham e... acenam (talvez se satisfaçam com isso).

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Quando crescer quero ter milhões  ―  disse o filhote de canjica  à grama esmeralda.

* * *
As telas de Picasso são o espelho do inconsciente ― dos outros.

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Boi de piranha é, também, o caminhoneiro atrasadão ― nos dois sentidos.

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― Mamãe, mamãe, quando receberei meu “mensalinho”?
― Cala a boca, Jeffinho. Dinheiro não trás felicidade. Não assim, no diminutivo...

* * *

Depois que inventaram o ostracismo, as ostras ficaram algo sésseis, sem assunto...

* * *

Considerando o que insinua o radical, “hipocrisia” deveria ser algo muito pequeno. Mas aí vieram os radicais e esculhambaram toda nossa inocência.

* * *

Sou especialista em generalidades. Mas tem tanto picareta se metendo em todo tipo de assunto que resolvi cassar meu título. Eis um “ex voto”.

* * *

Quarentão*, até hoje não sei o que é “pretérito do subjuntivo”.




*6/7/2005
Paulo Robson de Souza
(Da série 
Poesia Todo Dia!)


segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O METABOLISMO DAS COISAS III



Em dias de chuva a madeira morta, com saudade de seivas, ganha uma sobrevida e inspira a água do céu.

*   *   *

Pedras rolam de alegria, feito crianças, em dias de enxurrada.

*   *   *

Nas primeiras chuvas os quintais bafejam actinomicetices. Preferia desconhecer este fenômeno microbiológico (há muito descrito pela ciência) e, somente, sentir o cheirinho de terra – mesmo estando distante dela. Inclusive para não ter de usar este palavrão...

*   *   *

Das coisas, os muros velhos e brancos são os que mais se beneficiam com as gotas que caem do céu. Fotossintetizam.

*   *   *

Troncos mortos, revividos pela umidade, se coçam por inteiro ante o caminhar dos mixomicetos em sua pele vegetal.


Paulo Robson de Souza
20.3.14 Da série Poesia Todo Dia

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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

NECESSIDADES



Água quando se tem sede. Cama para quem se esgotou ou quer esquecer. Um pão dormido basta para a profunda fome. Na solidão, mãos.

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Os rituais matutinos. Não consigo me desprender deles. É como estar dormindo sentado, se eu acordar e não praticá-los. Primeiro o banho, a barba, algum exercício fuleiro no banheiro para aprumar a coluna; depois o preparo do café, os cuidados com os cães, e beijo de despedida e a solidão das paredes...
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Janelas emolduram oportunidades, disse mais ou menos assim outro dia. São saídas mais que entrada de luz e de ar e de canto de pássaros. Janelas são as narinas das residências. Pontos de escape de pontos de vista.


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A geladeira não é somente um item para conservar alimentos. É mais um divã na vertical, onde deitamos os olhos em busca de conselhos que aplaquem nossas angústias e ansiedades.

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O sexo é uma necessidade cromossômica.

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Em busca de orifícios, o gênero masculino segue a retidão. E parece que quanto maior a retidão, maior a necessidade.

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Algumas pessoas pintam os cabelos. Outras os descolorem e chamam isto de “luzes”. Umas passam titica de galinha na careca, para adubar os folículos mais mortos que múmia chinchorra. Outras extraem os pelos, um por um. Há as que se beijam no espelho, enquanto outras nem passam perto dele, para não esquecerem a imagem viçosa da juventude. Umas gostam de ver, outras de serem vistas – nuas. Há o caso famoso do nanico ditador que usa sapatos com plataforma maior que a própria tíbia; enquanto uma amiga grandona – juro que é verdade – há anos usa rasteirinha porque ouviu de uma colega (certamente baixinha!) que sua estatura era impositiva. Já o meu pai, seu Jaime, penteia os bigodes e planta bananeira na praia desde muito antes do nascimento dos netos.
Algumas dessas necessidades me cabem bem. Mas o que não consigo entender é a necessidade que algumas pessoas têm de contar dinheiro em público, uma espécie de exibicionismo “financial”, em vez de sexual. Parece que o poder de compra as fazem maiores, sei lá...


Paulo Robson de Souza
26.11.2014

Da série Poesia Todo Dia

sábado, 9 de julho de 2016

REFÚGIO DOS PENADOS



Buscava entreter seus vícios com coisas de não sei o que fazer. Uma lástima, diriam. Nunca mais conseguiu um nada sequer. Sua teimosia era comprar e comprar; prazeres que não são da carne, não são da alma, prazeres estranhos, esses de encher os olhos de bobagens que imediatamente serão descartadas, nunca usadas.

Dizem que foi dar com as fuças na miséria, tomado de assalto pelas armadilhas da vida.



Paulo Robson de Souza
Ponta Porã, 2.9.2014



sábado, 20 de junho de 2015

SOB PRESSÃO

Sob pressão, neurônios entram em curto, e até mesmo o mais experiente dos negociantes compram terreno na Lua.

* * *

A técnica mais besta da história das vendas não é pressionar o cliente. É oferecer o produto ou serviço pelo triplo, aceitar pechincha e “reduzir” o preço à metade. O que custaria 10, é negociado por 15! E a gente, feliz pela mágica dos números, sempre cai nela.

* * *

Dezembro deveria ser o mês com maior índice de infartos. É um tal de “vamos fechar o relatório” praqui, “corre, esse menino” prali, “é para ontem, meu filho!” pracolá, que o coitado do miocárdio se sente mais pressionado que massa de macarrão passando em máquina de nivelar asfalto. É tanto apressamento que me faz lembrar minha mãe, na minha infância na Piabanha, me dizendo depois de me confiar um recado: “eu vou cuspir no chão, moleque. Ai de você se quando voltar e ele já estiver secado. Hum!”.

* * *

No trânsito, a pressão não vem do excesso de veículos nestes anos 2010, mas da idiotice de motoristas que acreditam que furar sinais fará alguma diferença no tempo do percurso. É que o tempo ganho não vale o tempo de um cafezinho.


Paulo Robson de Souza

Dezembro de 2014 

quarta-feira, 10 de junho de 2015

FRASES SOLTAS



Três aniversários de pessoas queridas em três dias seguidos: 10 de novembro (Deise e Marco Antonio) e 12 (Lenir). Três festas, três graças num só coração. Mas, principalmente, três chances de não me esquecer de aniversário de pessoa querida.

*   *   *

Hoje reli algumas dessas frases que fiz há alguns meses, quase todas por mim esquecidas. “Frases Soltas” é o título dessas inconfluências. Ri de mim mesmo, da minha alternância de humor, da minha felicidade em encontrar um jeito trôpego e descomprometido de falar verdades. Frases soltas, ora essa...

*   *   *

Na sala ao lado acadêmicos botânicos discutem professoralmente as verdades científicas. Se lembrassem, meu deus, da relatividade desses achados, seriam menos enfáticos, menos crédulos e apaixonados. Parariam mais vezes para um cafezinho, coçar estigmas e ovários.

*   *   *

A festa de ontem foi muito boa: pensei que era cantor, pensou que cantava pra ela, pensamos que formávamos uma dupla, pensaram “vamos colaborar com esses dois palhaços cantando juntos”...

*   *   *

Gosto do cheiro de naftalina. Lembrança de roupa domingueira, lembrança de festa...

*   *   *

Hoje contrabandeei chocolate aos pedaços para o laboratório. Feio (daqueles de um quilo) mas gostoso. Tal qual mocotó, sarapatel e buchada de boi (juro! a de bode é mais bonitinha).

*   *   *

Quantos dias faltarão para eu completar este desafio de escrever diariamente? Acho que vou sentir falta disto, pois toda loucura tem seu tempo de Napoleão.

*   *   *

Hoje combinei comigo: Sidnei foi quem sugeriu essa “loucura” de escrever todos os dias do ano – repare leitor, não é “em todos os dias do ano” –, Sidnei será o padrinho dessa história. Aliás, patrocinador. É mais chique. Mais apropriado às loucuras.



11/11/2005

sábado, 22 de março de 2014

O METABOLISMO DAS COISAS IV




Para Luiz Bernardino
e Paulo Boggiani


Solos respiram; troncos mortos respiram; folhas secas molhadas, mais ainda. O mundo invisível cumprindo seu papel.

                                                     * * *

O tempo passando no couro esquecido no tempo se torna verde-gris.

                                                    * * *

Estátuas falam. Marcas escavadas na bancada laterítica falam. Por bocas e frestas cavernas ofegantes falam. Pedras dizem coisas que não sabemos ler.

                                                    * * *

No tempo acelerado dez mil vezes mil, rochas mudam de lugar. Movimento pétreo. A respiração ofegante do que se decompõe.

                                                    * * *

O tempo marca de verde tijolos adormecidos. Baixo metabolismo, beta clorofila, nitrogênio fixado... coisas de muro que só sabe reter.


Paulo Robson de Souza





22.3.2014

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

RESOLUÇÕES MATINAIS



Tomei um gole de coragem. Apertei os olhos, fiz a barba, cumpri o ritual de toda manhã. E aqui estou eu, um caco, um molambo, a um passo do desespero diante do que há por fazer nesta semana. Marasmo. Preciso urgentemente fazer um samba. Samba-canção, que é para afugentar a dor que me espreita. Precaução, há de se chamar.
                                                                             *   *   *

Acordar é uma necessidade, tanto quanto dormir.  Despertar mesmo, olhos esbugalhados para o dia, é matéria de outra categoria.

                                                                             *   *   *
É da natureza dos corpos buscar o equilíbrio.  Dizem que melancias o conseguem no balançar do caminhão. A mim, não é preciso filosofia de feira nem conceitos de entropia. Basta-me algo simples e prático: uma rede. Na rede sinto-me o próprio monge. Maior acolhimento não há. Rede sustenta, abraça, nina, quase faz cafuné. A minha tem voz, inclusive: “volte para mim... volte...”. Vou! Não posso contrariar quem só me quer o bem!

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O APANHADOR DE CANÇÕES



Ao poeta Sidnei Olivio
e ao poeta das artes visuais  William Menkes



As canções estão soltas por aí – diz o compositor pop.
Para apanhá-las, devo me soltar também, como ave predadora.
“O Apanhador de Canções” parece nome de filme. Mas é apenas uma intenção.  Aspiração de quem não sabe compor mas se vê compositor.
Preciso inventar um puçá que apanhe mínimas, semínimas e outros sinais com jeito de borboleta.
*   *   *
Creia: já tive medo de inventar canções, cantarolar alguma novidade. Medo de esquecer, desperdiçar inspiração.
Pois para mim, fazer canção é algo muito raro e sublime. Hoje tenho certeza que não tenho esse pendor. Quanto mais me convenci disto, mais perdi o medo de assobiar invencionices musicais. E não é que, depois disso, as canções começaram a aparecer? Ruins, muito ruins – como meus primeiros poemas. Esse é o meu consolo: talvez melhorem.
13/9/2005
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O pianinho eletrônico de Mariana dormiu por dez anos. Ontem coloquei pilha nova. O sono era profundo mas consegui acordá-lo. Agora torço para que desperte em mim emoções que redundem em alguma composição.  Porque a que penso que consegui fazer ontem, essa esqueci dez minutos depois. Pareceu-me bonita, a danada.
20/9/2005
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Hoje é início da primavera no hemisfério sul. Porque a Terra já cursou ¾ da sua trajetória, os sabiás cantam enlouquecidamente e esse vento chato não para de assobiar, pressinto que nos próximos dias colherei alguma canção. Não por causa das flores – mero detalhe neste contexto sazonal –, mas pelo princípio do fim do ano, quando me angustio ao enxergar vazios dentro de mim.
Colher alguma canção... Assim seja!, pois há dias em que não consigo colher nada que preste desse teclado sovina. Nenhuma palavra, nenhuma frase que mereça o consumo de alguns nanogramas de memória.
23/9/2005
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Depois que se aprende que o andamento da música deriva do pulsar do coração, atente-se para o emocional. Dizem que em dias de fossa canções são pegas mais facilmente.
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Em dias de chuva notas espargem pingos, respingos e enxurradas. Uma sinfonia. Aquática.
*   *   *
Quanto mais tento compor, mais percebo que não sirvo nem para crítico. Falta-me acidez.
24/9/2005
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Ops, há mais de 40 dias não venho aqui nesse muro de lamentações de quem não sabe compor. A novidade é que eu e Marco Antonio ganhamos um festival local com o xote nordestino “Sabiá Laranjeira”. Como apanhador de sabiás ou de laranjas devo ser ótimo ou, pelo menos, eficiente. Mas como apanhador de canções... Não é que, uma semana depois, sequer classifiquei o reggae “Amazônia” no Festival Universitário da UFMS? Eram apenas 72 músicas para classificar 22...
10/11/2005









Autor: William Menkes
Título: Sol
Material utilizado: Massa PVA Acrílica e tinta a óleo
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 50 cm x 30 cm
Acervo: Eliana da Silva Franco

domingo, 28 de outubro de 2012

PRÉ-TEXTOS VI




CICLO

Hoje é o segundo dia da segunda metade. Não pensei que escrever fosse – também – sorrir e sofrer.
A meia-vida do Carbono pouco me diz, a não ser que há tempo de nascer, tempo de sofrer, tempo de sorrir e morrer, tempo de esquecer da minha existência.
As evidências arqueológicas não nos deixam  mentir, mas as evidências presentes nos fazem crer no infinito.
Quando for pedra quero que me deitem no mar.

2/7/2005




REENCONTROS

Meus reencontros  cada vez mais estão desprovidos de chão. Falta-me discernimento. Memória é um bem precioso que me causa muita carência.
Carência de equidade.

3/7/2005


FECHADO PARA BALANÇO

Hoje estou de meias brancas, calça tergal – pasmem! – e camisa de listrinhas azuis. Abrir a boca? Nem pensar. Dormir esse dia não seria propriamente um desperdício de sol.

4/7/2005

sábado, 2 de junho de 2012

EQUILÍBRIOS


  
1.
Hoje o cansaço me fez perder o prumo. A busca diária por equilíbrio é inglória pois é o caos que põe ordem no universo. Haverá equilíbrio pleno quando se sabe que, mesmo na mais sólida pedra, pulsam partículas subatômicas? Há repouso na matéria? Caos e causa são unos, primordiais. O efeito nasce depois.

2.
O universo apoia-se no caos. No meu mundinho apoio-me  na minha bagunça sem fim e sustento-me de crises, caóticas imperfeições.

3.
Trabalho sob pressão e, ante a explosão, dilato-me. A isso os fisiologistas chamam de equilíbrio entre os meios interno e externo. Eu prefiro crer que sou adepto da teoria do “dane-se”.

4.
Filosofia baiana diante do chefe neurótico: não me aperte que eu peido.

5.
A desgraça da espécie humana é não encontrar a graça.

6.
De tanto buscar o equilíbrio espatifou-se. Enfim, equilíbrio (aparente) de corpos.

7.
Homem diante do espelho: um palhaço. Ilusão e espectro sorriem.


(setembro de 2005)


sábado, 19 de maio de 2012

PRÉ-TEXTOS V - AUSÊNCIAS II






Deixei enterradas no quintal de Conquista bolinhas de gude de um azul profundo. No forro da casa, desenhos de oceanos, peixes que nunca vi.

*   *   *

A palavra ausência é, por si só, muito só.

*   *   *

A adolescência é, também, um processo de senescência: é quando os pais descobrem, entre  marcas de espinhas, as marcas da solidão.

*   *   *

Saudade é a ausência disfarçada de passado.

*   *   *

A solidão não é a ausência física, mas um estado de inconsciência entre próximos.

*   *   *

Canções são lâminas de dois acumens.

*   *   *

O conforto do cacto solitário é ser suporte de cena. Por que sua presença constante em panorâmica de todo filme desértico?

*   *   *

Estrelas são a ausência mais brilhante dos objetos surgidos no céu.


(6.5.5)