terça-feira, 6 de novembro de 2012

A CASA DE NINGUÉM







Poema denso, frio, tenso, comprido
lembrando o frágil mato que persiste:
a casa do animal desconhecido.

Porque mora, porque ainda resiste
nessa vegetação seca, tão pouca?
Como pode viver assim, tão triste?

Bicho desconhecido... Casa tosca.
Desconhecida está sua morada 
nos capinzais da varejeira mosca.

Mas ela existe... nem que disfarçada
nos olhos vesgos desse estranho inseto,
em mosaico, por si multiplicada.

São poucos benfeitores, arquitetos
que, fecundos, a vêem. Somos, no fundo,
todos demolidores.... tão concretos!

Casa invisível... tosca... submundo...
animais transparentes... mentes foscas... 
A casa é de ninguém? De  todo mundo!


Do livro A Casa dos Animais 

(Paulo Robson de Souza, OAK, 2000)


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A CASA DE TODOS





A casa
se faz
ao vento...
Acaso.

Há casa?

Abrigo,
onde uma pré-história é contada
à luz da fogueira que em pó se arqueologizou.

Uma velha casa de arenito no vale do rio
Negro.
Uma toca...
um lar!




Sítio arquelógico "Córrego das Furnas I", município de Rio Negro (MS), abrigo de arenito cuja abertura 
mede aproximadamente 30 m. Feitas com óxido de ferro há dois ou três mil anos (Martins e 
Kachimoto, 1999, em comunicação pessoal), as figuras medem aproximadamente um metro de 
comprimento e podem representar aves da região. Seriam os primeiros tuiuiús 
a serem pintados no mundo?


Do livro A Casa dos Animais (Paulo Robson de Souza, OAK, 2000)

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

OS REIS DO PEDAÇO




Para Rubem Alves



Era uma manhã das de sempre
num capão do Pantanal
ou talvez na Bodoquena...
– não, não sei bem o local.
Era uma manhã confusa:
meio rara, algo banal.

O sol se partia em mil
nas gotas frescas do orvalho
as árvores bocejavam
balançando os longos galhos
a taboquinha era flauta
e os grilos eram chocalho.

Era farta primavera:
abelhas pra todo lado,
frutos davam a sua carne,
flores jorravam melado...
Troncos cuspiam filhotes:
patinhos pretos, dourados.


Como diria o Chicó
que mora dentro de mim,

não sei bem como é que foi,
eu só sei que foi assim

que o Caburé exclamou
dentro de um alto angelim:


– Ai, que bom espreguiçar,
sestear depois que caço...
Morar numa cobertura
de um tronco, ser um ricaço...
Como é bom, mesmo miudinho,
ser o tal... rei do pedaço.

O Falcão-peregrino retrucou:

– Eu sou o dono do pedaço!
Fora! Xô, seu... pigmeu.
Sou letrado, caburé,
no continente europeu.
Olhe bem pras minha garras...
repare que o rei sou eu.

Entra o Pica-pau-rei:

– Eu também tenho direito
sobre essa tosca madeira
pois cheguei aqui primeiro.
Não estou pra brincadeira.
Se vocês quiserem briga,
eu derrubo a mata inteira!


–  Quando nem buraco havia
comecei a trabalhar
nessa vil madeira morta
para o oco iniciar.
Sou do desenho animado,
mereço me instalar.


– Eu tenho um bico alvinegro,
a mais vermelha das penas,
lindos olhos, asas verdes...
Sou artista de cinema!
O buraco é meu, pois sou
a dona da Bodoquena.


– E daí, qual é o problema?
Parem de falar besteira.
Sou a maior e a mais linda
das araras brasileiras.
Trago o azul do mar nas penas
e o sol nas minhas olheiras.


– “Peraí”, gente. Qual é?
Esse oco é meu. Tem mais:
antes de 1500
já era o rei dos quintais.
Além disso, eu sou cantiga
do Vinícius de Moraes.


– Alto lá! Êpa! Tem gente!
Eu reformei este ninho.
Botei fora o caburé.
Enxotei o gaviãozinho.
Daqui não saio. Reparem
que eu sou um nobre vizinho.


– Cal-cal-calma lá! Nesse oco
botarei meus dois ovinhos.
Afinal, tenho olhos verdes
neste rosto tão branquinho...
Trago o azul, tenho o dourado
da Seleção Canarinho.


– Chega pra lá, sua amarela!
Cruza de águia! Monstrengo!
Esse oco é meu! Só meu.
Chega de história e de dengo.
Sou o rei dos céus. Mereço
pois sou forte, sou Flamengo.


– Sou o dono do buraco
meu povo amado, minha gente,
pois sou bom de bico, e até
ao comer, planto as  sementes.
Não bastasse isso, inda sou
amigo de ex-presidente.



O urutau que a tudo via
com sua sábia paciência
gritou para a bicharada:
– Que falta de complacência.
Há lugar pra todo mundo
quando se tem consciência!

Com seus olhos semi-abertos
para a luz, bico empinado,
Urutau falou, de um galho,
dormindo meio acordado:
– Essa briga é porque o mundo
está desorganizado.

– Cada qual com seu papel!
Todos têm o seu valor!
Todos são nobres e sábios.
É bonita toda cor!
Não existe tolerância
quando não existe amor.

– Organizando a bagunça:
buriti pra canindé,
pro pica-pau: bocaiuva;
angico pro caburé.
E pra grande araraúna,
manduvi será chalé.

– E se o tronco for o mesmo
disputado por vocês
numa mesma primavera,
é preciso sensatez.
Se não chegou a sua hora,
então, que espere a sua vez.

– Ou então, façam o seguinte:
quando o tempo for passando,
de pata em pata – ou de bico –,
que o ninho vá se moldando
segundo a necessidade,
de acordo com seu tamanho:

– Vem, primeiro, o pica-pau;
em seguida o tronco ampara
a nobre maracanã...
Tantos caberão, tomara:
o tucano, o urubu
e, por fim, a grande arara.

– Vamos combinar uma coisa?
Façam a reprodução
em períodos separados,
com farta alimentação...
Cada qual no próprio tempo...
Troncos à disposição.

Em meio a tantos doutores
de olhos grandes, acurados,
foi o urutau quem viu,
estando de olhos fechados:
– Há lugar pra todo mundo
num mundo civilizado!

– Discriminar é julgar,
antes que o tempo revele,
a história de cada um
e a cultura que se expele.
Não se conhece por fora
o que está dentro da pele.

– Há lugar pra todo mundo:
branco, preto, azul, dourado...
Sempre haverá um cantinho
no ambiente equilibrado.
Há lugar quando, pra todos,
direitos são respeitados.

Vendo, enfim, que a boba briga
encontrou um bom final,
o tal “pássaro-fantasma”
dos índios, o urutau,
voltou a dormir, esguio,
disfarçando-se de...
        pau.


•  •  •


Como diria o Chicó
que mora dentro de mim,
não sei bem como é que foi,
eu só sei que foi assim
que uma corriqueira história
encontrou seu próprio
                                                        fim.


Os Reis do Pedaço - Detalhe de aquarela de Ligia Zeolla Vieira

______________

Notas: 

Clique no nome da ave para obter informações sobre sua biologia diretamente do WikiAves (inclusive fotos e sons).

Cordel originalmente publicado no livro Poesia Animal (2003), com Sidnei Olivio 


Apresentado em 13 escolas de Campo Grande por atores amadores (alunos dos cursos de Ciências Biológicas, Artes e Pedagogia/UFMS, sob direção de Paulo Paes), dentro do projeto A Poesia É animal na Rede Estadual! (2004),  realizado com apoio do FIC/MS.

Excertos publicados na Ciência Hoje das Crianças, n°  214 (especial Biodiversidade), julho de 2010. Ilustrações de Rogério Coelho.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O PANO DE FUNDO

O pano de fundo – quarta capa da revista
Ciência Hoje das Crianças nº 226, agosto de 2011. 
Ilustrações de Mariana Massarani



Clique na imagem abaixo e leia a íntegra deste cordel. 


Outros links relacionados: 





terça-feira, 30 de outubro de 2012


Os reis do pedaço – Ciência Hoje das Crianças, n°  214, julho de 2010,
 especial "Biodiversidade" (páginas 10 e 11). Ilustrações de Rogério Coelho.



Trechos do cordel Os Reis do Pedaço, do livro Poesia Animal! (2003), com Sidnei Olívio. Clique na imagem abaixo para ler o texto na íntegra:


Links relacionados:

Rogério Coelho Ilustrador

Ciência Hoje das Crianças

Projeto incentiva leitura pela poesia

Zoopoesia

domingo, 28 de outubro de 2012

PRÉ-TEXTOS VI




CICLO

Hoje é o segundo dia da segunda metade. Não pensei que escrever fosse – também – sorrir e sofrer.
A meia-vida do Carbono pouco me diz, a não ser que há tempo de nascer, tempo de sofrer, tempo de sorrir e morrer, tempo de esquecer da minha existência.
As evidências arqueológicas não nos deixam  mentir, mas as evidências presentes nos fazem crer no infinito.
Quando for pedra quero que me deitem no mar.

2/7/2005




REENCONTROS

Meus reencontros  cada vez mais estão desprovidos de chão. Falta-me discernimento. Memória é um bem precioso que me causa muita carência.
Carência de equidade.

3/7/2005


FECHADO PARA BALANÇO

Hoje estou de meias brancas, calça tergal – pasmem! – e camisa de listrinhas azuis. Abrir a boca? Nem pensar. Dormir esse dia não seria propriamente um desperdício de sol.

4/7/2005

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

SABIÁ LARANJEIRA



(Xote Nordestino) 
Letra: Paulo Robson de Souza
Música: Marco Antonio Carstens Mendonça
Intérprete: Marco Antonio (voz/ violão)
Zabumba: Áttila Gomes
Flauta transversa: Adriano Praça
Triângulo: Paulinho




(Refrão)

Deixa eu ser seu sabiá
Laranjeira
Nos seus galhos aninhar
Deixa eu cantar pra você
Laranjeira
Deixa eu ser seu sabiá


A chuva grossa marca o tempo no terreiro
Misturando-se ao tempero
Cheiro bom de Salvador.
Beijo minha boca com bolinho de estudante
Uma dança cintilante
Com você tem mais calor.


(Refrão)
Deixa eu ser seu sabiá
Laranjeira
Nos seus galhos aninhar
Deixa eu cantar pra você
Laranjeira
Deixa eu ser seu sabiá


A lua brilha entre os pingos, nova lua
E sorri na boca sua 
Ao lamber o seu sabor.
E desce um doce acanelado dos sorrisos...
São Diogo – forte antigo –,
Protegei-me desse amor.


(Refrão)
Deixa eu ser seu sabiá...



(clique na imagem para ouvir)
"Mosquito" distribuído na entrada do teatro.


(Canção vencedora do Primeiro Festival de Música do Sicredi Federal - 
Teatro Glauce Rocha, Campo Grande, 28 de outubro de 2005)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

BAIÃO DO BICHO DESCONHECIDO


Música: Eduardo Boaventura
Letra: Paulo Robson de Souza
Intérprete: Eduardo Boaventura




Quem nunca quis enxergar,
quem nunca soube aprender
não sabe o que está perdendo
nem o que vai se perder.

Há maravilhas no mundo
– mesmo um pequeno besouro –
riquezas vivas trocadas
por um punhado de ouro.
Nas dunas, mangues, caatinga,
matas, serras, pantanais,
há sempre desconhecidas
maravilhas animais.

Quem nunca soube enxergar,
quem nunca quis aprender
não sabe o que está perdendo
nem o que vai se perder.

Mas...
mais?
Mais mais!
Mais e mais
e muito mais...





Do livro Animais Mais Mais 
(com CD encartado), 2011
Publicado na Ciência Hoje das Crianças número 235


Clique na figura abaixo e ouça a música no site da revista Ciência Hoje das Crianças