domingo, 11 de novembro de 2012

ARARA AZUL (com Dino Rocha)





Vídeo publicado em 01/08/2012 por Fernando Henrique Rocha Fontoura
com imagens do filme "O Mistério de Santa Luzia", de Sérgio Roizenblit
Música: Arara Azul, com o mestre chamamezeiro Dino Rocha
Poema (excerto): Das cores da arara-azul fez-se o verbo, de Paulo Robson de Souza
Declamação: Aurélio Miranda

Conheça a íntegra do cordel "Das cores da arara-azul..." clicando aqui:
http://paulorobsondesouza.blogspot.com.br/2012/08/das-cores-da-arara-azul-fez-se-o-verbo.html

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O APANHADOR DE CANÇÕES



Ao poeta Sidnei Olivio
e ao poeta das artes visuais  William Menkes



As canções estão soltas por aí – diz o compositor pop.
Para apanhá-las, devo me soltar também, como ave predadora.
“O Apanhador de Canções” parece nome de filme. Mas é apenas uma intenção.  Aspiração de quem não sabe compor mas se vê compositor.
Preciso inventar um puçá que apanhe mínimas, semínimas e outros sinais com jeito de borboleta.
*   *   *
Creia: já tive medo de inventar canções, cantarolar alguma novidade. Medo de esquecer, desperdiçar inspiração.
Pois para mim, fazer canção é algo muito raro e sublime. Hoje tenho certeza que não tenho esse pendor. Quanto mais me convenci disto, mais perdi o medo de assobiar invencionices musicais. E não é que, depois disso, as canções começaram a aparecer? Ruins, muito ruins – como meus primeiros poemas. Esse é o meu consolo: talvez melhorem.
13/9/2005
*   *   *
O pianinho eletrônico de Mariana dormiu por dez anos. Ontem coloquei pilha nova. O sono era profundo mas consegui acordá-lo. Agora torço para que desperte em mim emoções que redundem em alguma composição.  Porque a que penso que consegui fazer ontem, essa esqueci dez minutos depois. Pareceu-me bonita, a danada.
20/9/2005
*   *   *
Hoje é início da primavera no hemisfério sul. Porque a Terra já cursou ¾ da sua trajetória, os sabiás cantam enlouquecidamente e esse vento chato não para de assobiar, pressinto que nos próximos dias colherei alguma canção. Não por causa das flores – mero detalhe neste contexto sazonal –, mas pelo princípio do fim do ano, quando me angustio ao enxergar vazios dentro de mim.
Colher alguma canção... Assim seja!, pois há dias em que não consigo colher nada que preste desse teclado sovina. Nenhuma palavra, nenhuma frase que mereça o consumo de alguns nanogramas de memória.
23/9/2005
*   *   *
Depois que se aprende que o andamento da música deriva do pulsar do coração, atente-se para o emocional. Dizem que em dias de fossa canções são pegas mais facilmente.
*   *   *
Em dias de chuva notas espargem pingos, respingos e enxurradas. Uma sinfonia. Aquática.
*   *   *
Quanto mais tento compor, mais percebo que não sirvo nem para crítico. Falta-me acidez.
24/9/2005
*   *   *
Ops, há mais de 40 dias não venho aqui nesse muro de lamentações de quem não sabe compor. A novidade é que eu e Marco Antonio ganhamos um festival local com o xote nordestino “Sabiá Laranjeira”. Como apanhador de sabiás ou de laranjas devo ser ótimo ou, pelo menos, eficiente. Mas como apanhador de canções... Não é que, uma semana depois, sequer classifiquei o reggae “Amazônia” no Festival Universitário da UFMS? Eram apenas 72 músicas para classificar 22...
10/11/2005









Autor: William Menkes
Título: Sol
Material utilizado: Massa PVA Acrílica e tinta a óleo
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 50 cm x 30 cm
Acervo: Eliana da Silva Franco

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A CASA DE NINGUÉM







Poema denso, frio, tenso, comprido
lembrando o frágil mato que persiste:
a casa do animal desconhecido.

Porque mora, porque ainda resiste
nessa vegetação seca, tão pouca?
Como pode viver assim, tão triste?

Bicho desconhecido... Casa tosca.
Desconhecida está sua morada 
nos capinzais da varejeira mosca.

Mas ela existe... nem que disfarçada
nos olhos vesgos desse estranho inseto,
em mosaico, por si multiplicada.

São poucos benfeitores, arquitetos
que, fecundos, a vêem. Somos, no fundo,
todos demolidores.... tão concretos!

Casa invisível... tosca... submundo...
animais transparentes... mentes foscas... 
A casa é de ninguém? De  todo mundo!


Do livro A Casa dos Animais 

(Paulo Robson de Souza, OAK, 2000)


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A CASA DE TODOS





A casa
se faz
ao vento...
Acaso.

Há casa?

Abrigo,
onde uma pré-história é contada
à luz da fogueira que em pó se arqueologizou.

Uma velha casa de arenito no vale do rio
Negro.
Uma toca...
um lar!




Sítio arquelógico "Córrego das Furnas I", município de Rio Negro (MS), abrigo de arenito cuja abertura 
mede aproximadamente 30 m. Feitas com óxido de ferro há dois ou três mil anos (Martins e 
Kachimoto, 1999, em comunicação pessoal), as figuras medem aproximadamente um metro de 
comprimento e podem representar aves da região. Seriam os primeiros tuiuiús 
a serem pintados no mundo?


Do livro A Casa dos Animais (Paulo Robson de Souza, OAK, 2000)

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

OS REIS DO PEDAÇO




Para Rubem Alves



Era uma manhã das de sempre
num capão do Pantanal
ou talvez na Bodoquena...
– não, não sei bem o local.
Era uma manhã confusa:
meio rara, algo banal.

O sol se partia em mil
nas gotas frescas do orvalho
as árvores bocejavam
balançando os longos galhos
a taboquinha era flauta
e os grilos eram chocalho.

Era farta primavera:
abelhas pra todo lado,
frutos davam a sua carne,
flores jorravam melado...
Troncos cuspiam filhotes:
patinhos pretos, dourados.


Como diria o Chicó
que mora dentro de mim,

não sei bem como é que foi,
eu só sei que foi assim

que o Caburé exclamou
dentro de um alto angelim:


– Ai, que bom espreguiçar,
sestear depois que caço...
Morar numa cobertura
de um tronco, ser um ricaço...
Como é bom, mesmo miudinho,
ser o tal... rei do pedaço.

O Falcão-peregrino retrucou:

Eu sou o dono do pedaço!
Fora! Xô, seu... pigmeu.
Sou letrado, caburé,
no continente europeu.
Olhe bem pras minha garras...
repare que o rei sou eu.

Entra o Pica-pau-rei:

– Eu também tenho direito
sobre essa tosca madeira
pois cheguei aqui primeiro.
Não estou pra brincadeira.
Se vocês quiserem briga,
eu derrubo a mata inteira!


–  Quando nem buraco havia
comecei a trabalhar
nessa vil madeira morta
para o oco iniciar.
Sou do desenho animado,
mereço me instalar.


– Eu tenho um bico alvinegro,
a mais vermelha das penas,
lindos olhos, asas verdes...
Sou artista de cinema!
O buraco é meu, pois sou
a dona da Bodoquena.


– E daí, qual é o problema?
Parem de falar besteira.
Sou a maior e a mais linda
das araras brasileiras.
Trago o azul do mar nas penas
e o sol nas minhas olheiras.


– “Peraí”, gente. Qual é?
Esse oco é meu. Tem mais:
antes de 1500
já era o rei dos quintais.
Além disso, eu sou cantiga
do Vinícius de Moraes.


– Alto lá! Êpa! Tem gente!
Eu reformei este ninho.
Botei fora o caburé.
Enxotei o gaviãozinho.
Daqui não saio. Reparem
que eu sou um nobre vizinho.


– Cal-cal-calma lá! Nesse oco
botarei meus dois ovinhos.
Afinal, tenho olhos verdes
neste rosto tão branquinho...
Trago o azul, tenho o dourado
da Seleção Canarinho.


– Chega pra lá, sua amarela!
Cruza de águia! Monstrengo!
Esse oco é meu! Só meu.
Chega de história e de dengo.
Sou o rei dos céus. Mereço
pois sou forte, sou Flamengo.


– Sou o dono do buraco
meu povo amado, minha gente,
pois sou bom de bico, e até
ao comer, planto as  sementes.
Não bastasse isso, inda sou
amigo de ex-presidente.



O urutau que a tudo via
com sua sábia paciência
gritou para a bicharada:
– Que falta de complacência.
Há lugar pra todo mundo
quando se tem consciência!

Com seus olhos semi-abertos
para a luz, bico empinado,
Urutau falou, de um galho,
dormindo meio acordado:
– Essa briga é porque o mundo
está desorganizado.

– Cada qual com seu papel!
Todos têm o seu valor!
Todos são nobres e sábios.
É bonita toda cor!
Não existe tolerância
quando não existe amor.

– Organizando a bagunça:
buriti pra canindé,
pro pica-pau: bocaiuva;
angico pro caburé.
E pra grande araraúna,
manduvi será chalé.

– E se o tronco for o mesmo
disputado por vocês
numa mesma primavera,
é preciso sensatez.
Se não chegou a sua hora,
então, que espere a sua vez.

– Ou então, façam o seguinte:
quando o tempo for passando,
de pata em pata – ou de bico –,
que o ninho vá se moldando
segundo a necessidade,
de acordo com seu tamanho:

– Vem, primeiro, o pica-pau;
em seguida o tronco ampara
a nobre maracanã...
Tantos caberão, tomara:
o tucano, o urubu
e, por fim, a grande arara.

– Vamos combinar uma coisa?
Façam a reprodução
em períodos separados,
com farta alimentação...
Cada qual no próprio tempo...
Troncos à disposição.

Em meio a tantos doutores
de olhos grandes, acurados,
foi o urutau quem viu,
estando de olhos fechados:
– Há lugar pra todo mundo
num mundo civilizado!

– Discriminar é julgar,
antes que o tempo revele,
a história de cada um
e a cultura que se expele.
Não se conhece por fora
o que está dentro da pele.

– Há lugar pra todo mundo:
branco, preto, azul, dourado...
Sempre haverá um cantinho
no ambiente equilibrado.
Há lugar quando, pra todos,
direitos são respeitados.

Vendo, enfim, que a boba briga
encontrou um bom final,
o tal “pássaro-fantasma”
dos índios, o urutau,
voltou a dormir, esguio,
disfarçando-se de...
        pau.


•  •  •


Como diria o Chicó
que mora dentro de mim,
não sei bem como é que foi,
eu só sei que foi assim
que uma corriqueira história
encontrou seu próprio
                                                        fim.


Os Reis do Pedaço - Detalhe de aquarela de Ligia Zeolla Vieira

______________

Notas: 

Clique no nome da ave para obter informações sobre sua biologia diretamente do WikiAves (inclusive fotos e sons).

Cordel originalmente publicado no livro Poesia Animal (2003), com Sidnei Olivio 


Apresentado em 13 escolas de Campo Grande por atores amadores (alunos dos cursos de Ciências Biológicas, Artes e Pedagogia/UFMS, sob direção de Paulo Paes), dentro do projeto A Poesia É animal na Rede Estadual! (2004),  realizado com apoio do FIC/MS.

Excertos publicados na Ciência Hoje das Crianças, n°  214 (especial Biodiversidade), julho de 2010. Ilustrações de Rogério Coelho.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O PANO DE FUNDO

O pano de fundo – quarta capa da revista
Ciência Hoje das Crianças nº 226, agosto de 2011. 
Ilustrações de Mariana Massarani



Clique na imagem abaixo e leia a íntegra deste cordel. 


Outros links relacionados: 





terça-feira, 30 de outubro de 2012


Os reis do pedaço – Ciência Hoje das Crianças, n°  214, julho de 2010,
 especial "Biodiversidade" (páginas 10 e 11). Ilustrações de Rogério Coelho.



Trechos do cordel Os Reis do Pedaço, do livro Poesia Animal! (2003), com Sidnei Olívio. Clique na imagem abaixo para ler o texto na íntegra:


Links relacionados:

Rogério Coelho Ilustrador

Ciência Hoje das Crianças

Projeto incentiva leitura pela poesia

Zoopoesia

domingo, 28 de outubro de 2012

PRÉ-TEXTOS VI




CICLO

Hoje é o segundo dia da segunda metade. Não pensei que escrever fosse – também – sorrir e sofrer.
A meia-vida do Carbono pouco me diz, a não ser que há tempo de nascer, tempo de sofrer, tempo de sorrir e morrer, tempo de esquecer da minha existência.
As evidências arqueológicas não nos deixam  mentir, mas as evidências presentes nos fazem crer no infinito.
Quando for pedra quero que me deitem no mar.

2/7/2005




REENCONTROS

Meus reencontros  cada vez mais estão desprovidos de chão. Falta-me discernimento. Memória é um bem precioso que me causa muita carência.
Carência de equidade.

3/7/2005


FECHADO PARA BALANÇO

Hoje estou de meias brancas, calça tergal – pasmem! – e camisa de listrinhas azuis. Abrir a boca? Nem pensar. Dormir esse dia não seria propriamente um desperdício de sol.

4/7/2005