sábado, 15 de fevereiro de 2014

OH RAIOS!

Sábado branco. Da janela do quarto espio a mangueira da vizinha balançando com a chuva forte, cheinha de drupas róseas, convidativas. Tão convidativas que até o termo “drupa” me lembra mordidas, chupadas, caldo escorrendo pelo canto da boca. A murta está florida, pompons de flores brancas e cheirosas. Os pássaros estão alvoroçados, prenúncio de que muitas minhocas darão um rolê no quintal ô bichinhos loucos por chuva, esses de penas.

A chuva insiste. Por precaução, retirei o cabo do note, pois os trovões estão fortes – os raios não aparecem, mas estão aí em cima, pensei. Calculei a distância do raio contando os segundos que se sucederam até ouvir o trovão. Simples – falei para minha filha –, a velocidade do som é de apenas 300 metros por segundo, enquanto que a da luz é de 300 mil quilômetros. O trovão chega bem depois e...
...E a conversa não vingou. Não é que o Manoel tem razão? Muita ciência estraga a poesia.

25.1.14










sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

JANELAS CANSADAS





As janelas da alma estão quase emperradas. Janela de madeira é fácil consertar: você põe óleo, aperta parafusos, lixa, passa cera. Mas vistas cansadas, meu deus, como faze-las dormir se o cérebro não para de dar voltas, e os prazos e pressões de todo tipo dão tiros para o alto a todo momento?



ZENAIDA


A Maria Eugênia Amaral

Manhã de sol muito bonita. A pomba que recolhe ramos no chão é a cara de Dourados. Zenaida, a pomba-de-arribação, ribaçã da famosa música do Gonzaga.
Bichos têm este dom de nos fazer recordar, nos encantar, marcar lugares.
                                     Uma pomba-de-arribação recolhe ramos
                                     ao sol.
                                     Haverá ninho, filhotes,
                                     motivos pra não migrar.

                                     Zenaida, a ribaçã.
                                     Determinando o lugar.
                                     Acordando a manhã.


30.1.14

SEM FIM

                                                                                                      Há que se ter zelo
                                                                                                      astúcia
                                                                                                      cuidado
                                                                                                      ao enfrentar o destino
                                                                                                      sem medo e sem arma...
                                                                                                      Nada levo comigo.
                                                                                                      Nada.

                                                                                                                          
                                                                                                      Jornada (excerto)
                                                                                                      Shirley Brunelli Crestana

Nada levarei comigo
Ao ir desta pra melhor.
Minha sina sei de cor
E de coração eu digo:
O cordão do meu umbigo
Enterraram na celeste
E infinita estrada branca
Feita de pó estelar
É pra lá que vou voltar
Sem títulos, posses, vestes.

Se do pó, do chão nasci,
Sou de barro por inteiro.
Não passa de um atoleiro
Toda a vida que vivi.
Num instante percebi
Que, vendo a Eternidade
Toda grandiosidade
É bobagem, pó da estrada
Simples pulga na manada
Que corre e suja as cidades.


PRESSÁGIO


Noite mal dormida, pesadelos como o de gente querida com o rosto desfigurado por monstros invisíveis, bocas cerradas, amores tragados pelo medo, a dor da palavra indizível.

A depender disto tudo, meu dia será do tipo “era melhor não ter saído da cama”. Mas hei de ter discernimento, coragem para enfrentar os medos (que se escondem nos sonhos) e manter a chama daquele otimismo que vive dentro de mim desde criança, herdado dos meus pais, que passaram por toda sorte de dificuldades e me deram o exemplo e o apego à fé. Aliás, nada nesta vida foi fácil pra mim, sempre digo; mas ultimamente parece que os céus estão me testando ao limite. Pouco importa! Sempre estarei esperando pelo que penso merecer, como naquela anedota do sujeito que recebe uma caixa de cocô de cavalo e sai pulando pela sala, aos berros – redundantes, próprios da alegria pueril –, “ôba, ganhei um cavalo. Quando chegará meu cavalo? Quando chegará meu cavalo?” Sempre digo para meus amigos e família: EU sou o dono deste cavalo.
Que venha o dia.

RESOLUÇÕES MATINAIS



Tomei um gole de coragem. Apertei os olhos, fiz a barba, cumpri o ritual de toda manhã. E aqui estou eu, um caco, um molambo, a um passo do desespero diante do que há por fazer nesta semana. Marasmo. Preciso urgentemente fazer um samba. Samba-canção, que é para afugentar a dor que me espreita. Precaução, há de se chamar.
                                                                             *   *   *

Acordar é uma necessidade, tanto quanto dormir.  Despertar mesmo, olhos esbugalhados para o dia, é matéria de outra categoria.

                                                                             *   *   *
É da natureza dos corpos buscar o equilíbrio.  Dizem que melancias o conseguem no balançar do caminhão. A mim, não é preciso filosofia de feira nem conceitos de entropia. Basta-me algo simples e prático: uma rede. Na rede sinto-me o próprio monge. Maior acolhimento não há. Rede sustenta, abraça, nina, quase faz cafuné. A minha tem voz, inclusive: “volte para mim... volte...”. Vou! Não posso contrariar quem só me quer o bem!

VIVER É DESENHAR...



Viver é desenhar sem borracha. Frase atribuída ao grande Millôr Fernandes, estampada numa caneca vermelha de acrílico sobre a mesa, festa da Lu, lembrança de aniversário de 45 anos da amiga Iná Lúcia, recentemente conhecida.

Um sábio, este Millôr. Escrachadamente sábio. Nem pensar, consertar o passado. Não cabe nem na lógica popular, quanto mais nas ciências exatas. Aliás, nem nas biológicas: depois da caca feita, como diria a garotada, já elvis! É infinitamente mais caro consertar do que prevenir, diria em outras palavras algum sábio ecólogo.

E o futuro, é possível traçá-lo, usar borracha para aprumar a linha do tempo que ainda virá? Não sei. Nessa minha vida esculhambada, de rumos traçados (e destraçados) pela intuição mais que pela razão, de abrir velas e ir para onde o vento soprar, estarei sempre na expectativa, sem saber em que praia aportarei amanhã. Mas aos incautos, aviso: há que ter sensibilidade para sentir o vento bom, abrir as velas no tempo certo, aprumar o corpo. Planejar é bom, é saudável, mas sermos escravos de objetivos e metas é de afundar navios!

sábado, 18 de janeiro de 2014

PERDAS


Chorou a morte do tio.
Não o vi, não o conheci...
Nunca o seu cheiro, seu sorriso, sua voz que supunha mansa.
Difícil estar
No lugar de alguém que fechou para si a vida de alguém
Que tanto quis conhecer.


Chorou a morte do tio, deduzo. Impossível ter sido diferente.
Nunca mais este encontro
Nunca prometido
Mas que desde o primeiro instante do [meu] saber da sua existência
Quis que acontecesse.
Agora o nunca.
O nunca mais.



quinta-feira, 10 de outubro de 2013

SETE CORDAS, SETE ARTES



Hoje, 10 de outubro de 2013, perdemos Orlando Brito, músico profissional e compositor respeitadíssimo. No Regional de Choro Agemaduomi e na Confraria do Choro, era quem tocava o violão de sete cordas, embora dominasse também o canto, a viola caipira, o cavaquinho e outros instrumentos. Junto ao músico Adriano Praça, tive a felicidade de contar com sua parceria em alguns trabalhos, como “Pretenso Chorão” (CD “Agemaduomi - 10 Anos de Choro”) e “O Choro do Tubarão-baleia”, do CD encartado ao livro “Animais Mais Mais”, cuja partitura foi publicada neste Caçuá (clique aqui para download).

Em 2006 Orlando me passou o áudio de uma música dele, ainda sem nome, para que eu botasse letra. O resultado foi este, “Sete Cordas, Sete Artes”, finalizada em agosto de 2007. Ainda inéditas, letra e música ficaram descansando todos esses anos até hoje, pois não é justo, em memória do Orlando, que só eu tenha acesso a este trabalho. Aliás, “Sete Cordas” é quase inédita: em 2007 a apresentamos na Confraria do Choro (Campo Grande), sem ensaio sem nada, uma brincadeira que fizemos naquela noite de domingo chamando nossa apresentação despretensiosa de “lançamento mundial” desta composição.

Além de ser um grande músico, com sólida carreira ancorada em Cuiabá (MT) e Campo Grande (MS), Orlando se notabilizou pelo seu humor constante, sempre com uma piada pronta para qualquer situação. Orlando brincava até com sua incapacidade de enxergar. Pois bem! Como muitos sabem, sou muito distraído. Assim que a letra ficou pronta, eu a enviei ao Orlando, via e-mail, e também entreguei uma cópia impressa em mãos, dizendo que havia escrito a letra como se fora ele próprio quem a escreveu, dignificando sua deficiência visual, sua arte e profissão. Dias depois, na Confraria, cheguei pra ele e disse: “E aê, parceiro, já decorou a letra? Vamos cantá-la hoje mesmo, de qualquer jeito?”. Orlando, de pronto, respondeu: “Tá brincando, rapaz!! Como é que eu vou ler [texto word]? Esqueceu que eu sou cego?”. Era uma gozação, pegadinha que caí fácil, fácil, pois que meu amigo possuía em seu computador um programa de leitura de texto! Este era o Orlando!



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SETE CORDAS, SETE ARTES


Música: Orlando Brito
Letra: Paulo Robson de Souza



Há mãos que marcam o papel
– histórias que sei de cor –
Mãos que dominam a cor
Mãos que modelam o pó...

Eu que não sei escrever, contar
Nem desenhar, esculpir
Faço a arte das mãos
Acariciando o violão.

Há quem faz rir ou chorar
Dançar as mãos no chapéu...
Mãos que eternizam a luz
No celulóide papel.

Eu que não danço e nem sei filmar
Representar, fazer rir...
Quero cantar, quero ouvir,
Dedilhar um jeito de sentir.

Quando em mim assenta a inspiração
Vem muito trabalho, transpiração,
Mãos de sal emanam arte e por toda parte surge o essencial.

Quando a alegria some pra cá
Quando a harmonia falta por lá
O trabalhador descansa revivendo o artista que ri por trabalhar.

Eu que não sei escrever, contar
Nem desenhar, esculpir
Faço a arte das mãos
Acariciando o violão.

Quero rever os sete
Mares e céus e cores
As sete artes sentir
Sete cordas tocar.

Distribuir sementes
Tateando outras mãos
E, no fim, na senescência,
Aos sete palmos no chão...

Redescobrir a vida
Das mãos brotar sorrisos
A música planta
Poesia no ar.

Eu que não sei escrever, contar
Nem desenhar, esculpir
Faço a arte das mãos
Acariciando o violão.





sábado, 31 de agosto de 2013

OS URUBUS SÃO LINDOS!





Tem gente que só enxerga
o que se bota na mesa
só tem olhos para o belo
se esquecendo da dureza
que é limpar toda sujeira
feita pela boniteza.
Não há feio nem bonito
nesta sábia natureza.

O que seria do mundo

se não fossem os urubus
que, para os ignorantes,
são filhos do belzebu?
Saneando, comem o feio
e o belo que deu chabu.
Se beleza não põe mesa,
sua beleza é hors-concours.


“Peraí”, você está rindo?
Já lhe explico. Calma lá!
Toda criação é bela.
Você há de concordar:
cada beleza depende
de cada jeito de olhar.
Dependendo do momento,  
ave mais bela não há!


Veja só o urubu-peba:
tem a cara matizada
predominando o amarelo,
de laranja e azul ornada.
Vendo de perto parece
por grande artista pintada.
Chamam cabeça-de-sola
essa espécie maquiada.

Urubu-peba adulto (Cathartes burrovianus)


Mais esguio e não tão preto
quanto o mais comum da lista
de urubus da minha infância
em Vitória da Conquista,
Cathartes burrovianus
fez de mim sua conquista
(é assim que ele é chamado
pelos nossos cientistas).


lembra o peba na planada
mas sua careca é vermelha
e sua nuca é azulada.
Pelo nome o bicho gosta
de uma carne mal passada.
Mas confesso que não vi
até hoje sua caçada.


Mas sua cor não é tão negra
quanto o azulado chupim.
Tem um voo tão elegante
quanto o pequeno tuim
o dito Cathartes aura
(a ciência o chama assim).
Como é bom vê-lo planar
no disco do Tom Jobim!

No Pará ele é jereba

e no Rio ele é campeiro.
Assim como o urubu-peba,
acha o morto pelo cheiro.
Acredite se quiser:
o distinto cavalheiro
gosta de comer coquinhos
saídos do dendezeiro.


Cathartes melambrotos
Tem a cabeça amarela
de uma palidez inata.
Tem nome nobre – fidalgo
mas não vive de bravatas:
na Amazônia os bichos mortos,
usando o olfato ele cata.

Quem já viu o urubu-rei

no alto céu buscando sal,
nunca mais esquecerá
dessa cena tão real
como eu vi na Bodoquena
em uma tarde sem final.
Sarcoramphus papa! Eis
o seu nome oficial.


Depois do condor-dos-andes
(que aqui não se reproduz)
é o que busca o céu mais alto
e o maior dos urubus.
Num “banquete” há hierarquia
para não virar angu:
come a carniça primeiro,
retalhando o boi zebu.

O refinado ministro
também é o mais enfeitado:
quando jovem é cinza-chumbo
quando adulto é esbranquiçado.
Tem bolotas na cabeça
e os olhos são azulados.
Talvez por se achar um rei
tem um papo exagerado.


é justamente o contrário:
parece que faltou tinta
na despensa do berçário   
pois o adulto é todo preto
mas é branco no fraldário.
Em termos de quantidade
ele é o mais ordinário.

Tão numeroso, parece
batalhão de infantaria
a enfrentar, nos lixões,
carniças e porcarias.
E Coragyps atratus
– ave de grande valia –
é o seu nome de guerra
nos livros de biologia.


Ah! Nos céus da caatinga
dá uma confusão danada:
há um gavião escuro
com barras acinzentadas                  
na sua cauda elegante
como se sinalizada.
É um pássaro? Um avião?
Um urubu na caçada?


Ele é um grande imitador
do planar de um urubu...
Ele é o "super" caçador,
pois assim não espanta a presa
– mimetismo de valor.
Gavião sem-vergoinha,
espertinho predador!

É um gavião bonito,
tem feições elaboradas...
Mas mesmo desengonçados,
com aquela cara lavada,
os urubus são mais belos
pelas vistas desarmadas.
Existe um charme, sei lá,
no mundo da urubuzada!


Ah, se o Tom Jobim pudesse
ver o que vi inda agora:
briga de um burrovianus
com um carcará que chora
por conta de um peixe morto
pertinho do Campo Dora.
No ar deu uns petelecos,
mandou o carancho pra fora.

Dizem que todo urubu
é parente das cegonhas.
Eu bem que desconfiava
pois o bicho é sem-vergonha
dado a levar cururus
na viola com os que sonham
com a “zoofesta” do céu
contada à beira da fronha.  


Urubus têm atributos
que lhes facilitam a vida:
carecas até o pescoço,
mesmo se buscam a comida
nos ventres apodrecidos
das criações falecidas
não se sujam pois sua cara,
naturalmente, é lambida. 


Chega a ser até engraçado
quando vão se alimentar
enfiando sua cabeça
dentro daquele lugar.
Eles começam por onde
nosso pão vai se acabar.
Eis o “papo de urubu”
do ditado popular! 


E na hora do sol forte
antes da vagem rachar
abrem as asas contra o vento
sobre um toco do lugar
como faz toda cegonha
pra poder se refrescar.
Cagam nas próprias canelas
pro calor se dissipar.

Os urubus se comportam
de modos muito diversos:
brigam, xingam ao seu modo,
pela brisa são dispersos.
Fazem piruetas de amor,
no profundo azul imersos...
São tantos comportamentos,
que não cabem nestes versos.


Muito poderia dizer
do “pessoal da limpeza”.
Você também tem um monte
de histórias, sim, com certeza.
É por isso que repito
que beleza não põe mesa.
        Não há feio nem bonito
        nesta sábia natureza.


Do livro Poesia Animal (com Sidnei Olívio), Editora UFMS/ Sterna, 2003.

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Nota

Essa quase moda de viola teve como base o livro Ornitologia Brasileira, de Helmut Sick (Nova Fronteira, 1997) e observações de campo. A ornitóloga Adriani Hass gentilmente fez a revisão técnica do poema. 

Saiba mais


urubu-peba (urubu-de-cabeça-amarela): http://wikiaves.com.br/urubu-de-cabeca-amarela
urubu-caçador (urubu-de-cabeça-vermelha): http://wikiaves.com.br/urubu-de-cabeca-vermelha
urubu-da-mata: http://wikiaves.com.br/urubu-da-mata
urubu-rei: http://wikiaves.com.br/urubu-rei
urubu-comum (urubu-de-cabeça-preta): http://wikiaves.com.br/urubu-de-cabeca-preta
Buteo albonotatus (gavião-de-rabo-barrado): http://wikiaves.com.br/gaviao-de-rabo-barrado