quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

MONTANDO VERSOS (720 combinações)


                         na lama posta em camadas
pegadas de tempos idos
versos largados ao vento
um cavalo pantaneiro
brincadeira de montar
um poema inacabado

O poema acima foi originalmente publicado no livro Poesia Animal (Editora UFMS e Sterna, 2003), em parceria com o biólogo e poeta Sidnei Olivio. Assim mesmo, sem qualquer pontuação ou letra maiúscula! Refere-se ao pequeno cavalo Eqqus vandonii, cujo fóssil, um crânio, foi encontrado por um pescador no rio Paraguai, em Corumbá (MS) e depositado em 1981 no Museu Nacional (RJ). Atualmente, uma réplica desse achado está exposta no Museu de História do Pantanal, em Corumbá (foto).

Segundo Dinos Virtuais, a exposição virtual do Museu Nacional, Equus vandonii viveu na região entre 30 a 18 mil anos atrás (Pleistoceno); portanto, não há qualquer relação com o cavalo pantaneiro atual, raça que descende de animais desgarrados das tropas trazidas da Europa ao nosso continente por colonizadores espanhóis.

Em 2004, durante o desenvolvimento do projeto A Poesia Animal é Animal na Rede Estadual!, esse poema foi remontado por crianças de 13 escolas de Campo Grande (MS), da seguinte maneira: ao final das apresentações artísticas de poemas desse livro, feitas por alunos da UFMS, os pequenos recebiam um pedaço de cartolina com o poema original e o mesmo poema, impresso em papel adesivo e com os seis  versos previamente recortados. Eram convidados a remontar os versos, fazer nova pontuação e ler o resultado – agora um novo poema – para a plateia.

Com a ajuda do professor de ciências e física Edy Wilson (um especialista em linguagem Flash) e da professora de biologia Marilyn Matos, esta mesma "brincadeira literária" está sendo reeditada pelo InterCiências/UFMS – projeto coordenado pelos professores Ricardo Ribeiro dos Santos (Coord. Geral) e Carla Cardozo Pinto de Arruda (Biologia) –, agora feita na tela do computador. Quer experimentar? Siga as instruções:

Brincadeira literária – Desconstrua/reconstrua o poema Montando Versos
Monte os versos abaixo na sequência que você achar melhor e depois faça a pontuação que você considerar mais adequada ao novo texto. Para isto, com o mouse arraste os versos  para a posição desejada (mantenha o botão esquerdo do mouse apertado). Em seguida, arraste o sinal de pontuação desejado para o final de cada verso, se julgar necessário.
Se quiser, poste o resultado dessa brincadeira em "comentários",  para que todos vejam o novo poema.
Importante:
  • Ao arrastar um verso sobre o outro, suas posições serão automaticamente invertidas. Altere a posição dos versos e substitua ou repita os sinais quantas vezes quiser.
  • São 720 combinações possíveis (Análise Combinatória do tipo Permutação, sendo n = 6 fatorial), o que significaria 720 novos poemas – desconsideradas as diversas possibilidades de pontuação. Divirta-se!


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Descubra o fóssil

Abaixo, uma foto da réplica do fóssil de Equus vandonni exposta no Museu de 
História Natural (Corumbá, MS), propositadamente coberta por "areia". Retire-a com o mouse e veja o que aparece.

 

 Descoberto o fóssil, o que se vê? 
 Na parte superior, a caixa craniana; ao centro, a mandíbula ou o queixo do animal (as peças estão voltadas para a direita, sobre areia); embaixo, uma vértebra. (Foto: P.R. Souza, 2011)



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

XOTE DA SALAMANDRA-GIGANTE (com Eduardo Boaventura)


Vixe, que coincidência! Enquanto eu postava, neste Caçuá, a letra do futuro xote Ănima do Animal (baião do bicho mal conhecido) – sobre animais ditos asquerosos – e convidava meu amigo e parceiro musical Eduardo Boaventura para musicá-lo, o próprio Eduardo formatava (no Rio de Janeiro) e postava, no Youtube, um audiovisual com o nosso Xote da Salamandra-gigante. Nada combinado!

Mais curioso ainda é saber que o Eduardo Boaventura é o autor da música do quase homônimo Baião do Bicho Desconhecido que, como o "Xote da Salamandra", também faz parte do CD Animais Mais Mais, encartado ao livro de mesmo nome (2010). Quer conferir o resultado desse encontro de intenções? Clique no link abaixo – e não se esqueça de colocar o som no último volume e chamar o(a) parceiro(a) para dançar, que isto pode virar um forrobodó divertido!



Tela do Youtube, Xote da Salamandra-Gigante


·         Música, voz e vocal: Eduardo Boaventura
·         Letra: Paulo Robson de Souza
·         Produção, arranjos, gravação e mixagem: Cyro Telles
·         Violão e teclados, programação de percussão: Cyro Telles
·         Rearmonização: Alexandre Guichard
·         Gravado em outubro de 2004 nos estúdios da Casa de Pedra Gávea, Rio de Janeiro
·         Música incidental: “Samba Lelê” (do cancioneiro popular brasileiro)
·         Formatação do audiovisual: Eduardo Boaventura


Imprima a letra e cante, meninada!



Xote da Salamandra-gigante 

        

Música: Eduardo Boaventura
Letra: Paulo Robson de Souza


Grande Salamandra
vive sendo gozada
na sua aparência
por toda a bicharada.

Parece um lagarto
de pele bem gosmenta,
escorregadia
feito uma rã-pimenta.

E também parece
uma rã que se esticou,
ganhou uma cauda
e nunca mais pulou!

Corre corre corre corre para a água
e volta para a terra.
Nessa vida “dupla”
Salamandra se encerra.

Os bichos não entendem
a sua aparência
– falta de leitura,
falta de ciência.

O gigante anfíbio
tem grande sapiência:
não dá importância
para a gozação imensa.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

CRÔNICAS DE ITAÚNAS


1.
Itaúnas, um lugar gostoso de se ver,
delicioso de se dançar

um forró leve, animado
(na ponta do pé só existe lá).
E por isso penso que essa vilinha
no norte do Espírito Santo
é a mais nordestina do litoral sul.

Itaúnas – pedras pretas.
Vi vermelhas, à beira mar,
de um vermelho corado, tinta para a cara dos índios
botocudos de séculos antigos.

Nunca vi tanta areia, tantos grãos errantes
– dunas de mais de 30 metros
que escondem a velha vila
com suas casas brancas e a – sempre – igrejinha
(nem a cruz da frágil torre
denuncia o sítio das casas soterradas!
Mas há um cercado tosco, desses de arame farpado,
como a proteger o céu que se deitava nos seus telhados).

As frágeis dunas guardam, como fortalezas,
em seus vales brancos a água e
as espessas matas de uma restinga exagerada.

É no branco da areia que dá
um coquinho alaranjado
que cai do minúsculo pé
quando bem maduro, bem cheiroso.
Nos dicionários guriri é “buri-da-praia”
mas eu prefiro prová-lo nas areias – e com areia! –
apesar do gosto bom que tem a palavra.

O fruto do cacto da praia é insosso
mas, com otimistas olhos na barriga,
pressenti sabores vendo sua tez vermelho-carmim.


2.
Foi numa tarde, dessas que parecem prolongar
os sonhos enigmáticos da noite anterior,
que vi, após andança pela praia do Riacho Doce,
em direção ao norte, nos limites da Bahia,
dois gansos na beira da maré.
Visão estranha! Até hoje não entendi
porque não morri.

As bandas do Riacho Doce são lindas:
há um rio vermelho-escuro muito bravo – apesar de pequeno –,
talvez devido às pedras roxas que estrangulam sua garganta.
Parece feito de sabão,
tanta substância vegetal traz para o mar,
ofertando-lhe uma vestidura de espumas.
Mas não é dessas espumas que matam, que cortam.
É uma espuma que tem graça, firmeza e encanto
na pele da criança que brinca de esculpir barbas e perucas – minha filha.

Em Riacho Doce
são tantas as cores nas rochas
que se derretem, pastosas, nas quase falésias
denunciando os vários mantos que tem o subsolo
e os veios de águas doces, puras, gotejando dos tetos sobre o sal do mar,
donde bebi sem medo.

As praias moldam diferentes areias, cada qual no seu tempo,
expresso no tamanho dos grãos.
(Nesse lugar se vê com os pés,
e ai de quem caminhar calçado:
perde o prumo também!)

Há um pássaro que canta triste
nas dunas brancas desse lugar
– “sabiá-da-praia”, só poderia ser!,
mesmo não sendo sabiá e nem exclusivo das praias.
Sábio é o povo, impingir o óbvio no improvável,
o consenso nos paradoxos.


3.
E por falar em povo,
vi o ticumbi, com seus homens em filas duplas ou em roda,
dando mergulhos animados com os seus pandeiros em busca da toada,
numa espontaneidade só encontrada na cultura popular.
São caboclos que têm orgulho do que fazem, e cantam por devoção.
Com minha mania de querer achar respostas para todas as interrogações,
pensei que o nome pudesse derivar do bater dos instrumentos:
todos os homens portam pandeiros nervosos mas alegres,
entes autônomos que parecem responder às ordens ou motes
do mestre
condutor da brincadeira.
Melhor continuar sem saber, pois o saber tira a mágica das coisas!,
foi o que me ensinou o poeta.

Há muito pigmento na pele desses homens,
demonstrando que guardam o sol e a ascendência africana.
Mas são ameríndias as feições, o jeito de cantar.
E há espadas que abrem um dos atos,
reiterando a nobreza da representação e,
talvez, a porção ibérica da brincadeira.

Pena que só vi um pedaço
de um ensaio.


4.
Em Itaúnas há helicônias,
há maracujás verdes, há tartarugas
e beija-flores,
e pousada de mesmo nome onde habitam
o amor e a cordialidade sincera.


5.
Em Itaúnas o forró brota de ruas verdes,
dos pátios e bares de tosca construção
e nem a chuva insistente diminui seu calor.

Há bandos de artesãos,
de adolescentes e universitários que dialogam
o convívio sem preconceitos.

E foi O Bando de Maria
quem tomou de assalto uma noite de forró,
apenas uma das muitas que se sucederam.


6.
Mas nem tudo é alegria:
A floresta de eucalipto avança por toda parte
e há lugares em que se planta a quinhentos metros da praia.

É de se perguntar sobre o valor da paisagem nativa
que corre o risco de só existir no papel
– no duplo sentido.
Krajcberg chora. 

(maio de 2004)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

HÁ QUE SENTIR A NATUREZA...



A Masao Uetanabaro



Pra se dizer “eu vivi
bem a vida” com certeza,
há que sentir as texturas,
cores, formas, a Beleza...
De alguma maneira ouvir
as criaturas, sentir
por inteiro a Natureza.

De olhos grandes, como anfíbios,
perceber comportamentos...
Ver no campo um livro aberto,
ver o Eterno num momento,
a plenitude da vida –
mesmo na lama, escondida,
ou no ser dito “nojento”.

Este livro* é um convite
de Masao e companhia
pra que sinta as maravilhas
dos nossos sapos e jias...
E, na luz que habita o escuro,
pela vida dos anuros
sentir toda a Poesia.




(*) Este cordel foi originalmente publicado na orelha do livro Guia de Campo dos Anuros do Pantanal e Planaltos de Entorno, de Masao Uetanabaro, Cynthia Prado, Zilca Campos, Domingos de Jesus Rodrigues e Marcelo Gordo (Editora UFMS e EdUFMT, 2008).  

sábado, 11 de fevereiro de 2012

ĂNIMA DO ANIMAL (baião do bicho mal conhecido)



Para Masao Uetanabaro

  
Um sapo imprime em meu olhar o seu farnel
de manchas, riscos coloridos e texturas
e me revela, num pedaço de papel
o encantamento que tem toda criatura.




Serpentes marcam o chão sedento do Cerrado
que está, decerto, jururu sem teu carinho.
Meus olhos túrgidos de seres mal amados
ficam encantados com a beleza dos bichinhos.

    Ănima
    a alma próxima.
    Animal:
    beleza única.
    Pobre coitado o que não vê no bicho o irmão
    o dom divino, o poder da criação.

Aranhas, lesmas, mexilhões, vespas, lambretas
são comparáveis às mais lindas borboletas...
Pois, se bem visto, o desprezível animalzinho
tem, ao seu modo, o (en)cantar dos passarinhos.

Um sapo expande o meu olhar com o seu olhar
desabrochando sentimentos, cantorias
e esse mirar contemplativo vai deixar
meus olhos grávidos de tanta poesia.


Ănima
a alma próxima.
Animal.
Beleza única do animal é ănima.
Pobre coitado o que não vê no bicho o irmão,
o dom divino, o poder da criação.


(Projeto Jauru, abril de 2004)

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Nota: a série completa dessas fotos, originadas do levantamento da herpetofauna do sítio Quintas do Sol e entorno, município de Corguinho, MS, feito pelas biólogas Kamilla Mecchi e Gisele Vergílio, podem ser visualizadas em 
https://picasaweb.google.com/111271138210217112948/BELEZURASDAKAMILLAEGISELE#5708420782453635522

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

RETRATO DE FAMÍLIA



 Sobre monografia* de Thaisa Bueno, a quem dedico.

I.
É um processo:
a luz refletida nos corpos
atravessa a curvilínea vidraça
e cai num quarto escuro e diminuto.
Numa fração de tempo menor que uma das letras da
                           [pequena sílaba dita pela cortina que se abre,

eis que o nitrato
— sal de prata deitado numa parede de acetato —
deixa-se banhar pela luz
e se transforma.
Ainda sensível à luz brincante que, insistente, ronda sua casa,
é preciso frear suas emoções,
logo adiante reveladas.

II.
Diga-me num átimo:
há como deter o tempo
se o próprio tempo
é o artífice do processo?

Moléculas modificadas pelo beijo da luz
não são o tempo congelado:
são simplesmente sinais
de cor ou ausência de cor
grafados pelo tempo sem fim.
  
III.
Eis o retrato:
a mulher esguia e loura que fotografa me revela:
o fotografado
não é o ser
mas o que pretendia ser.
É, portanto, objeto abjeto,
papel cheio de intenções. E o cenário
é simplesmente um cenário
da caixa de um teatro.
Mentira ou ilusão?
Farsa ou fantasia?
Aberta a cortina, nada é real exceto nossa consciência.
  
IV.
O paradoxo:
a fotografia surge da reflexão de objetos
— matéria e espaços no tempo —
e só passa a existir se refletida.
Nasce e morre pela luz
— que é matéria, se transformada;
que é onda quando vagueia;
energia, na sinergia com o tempo
e caneta
para escrever photo graphias.
Mas não há luz se não há matéria, espaço nem tempo.
Repito: como congelar espaços e tempos num papel
que nasce e morre pela luz?
Há tempo ou matéria na fotografia?
  
V.
A fotografia:

A cena que tento ver
é o que posso perceber.
Sem estar, sem ser, será:
não ser, não ver, não estar...

Paulo Robson de Souza
(junho de 2004)


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(*) 2004 - Especialização em Imagem e Som 
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. 
Título: Olhares Interiores - uma análise dos álbuns de família. 
Autora: Thaisa Cristina Bueno.
Orientadora: Marly Damus.

Sobre a foto: 
(da direita para a esquerda) eu, meu pai Jaime e meus irmãos Welleson e Jairo, 1975.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O FÓSSIL



Num átimo o tempo gessa
A face dolente, nua.
Mas, com o tempo, se habitua
A deixar marcas sem pressa.

(2005)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A FOTOGRAFIA




(2002)

TECLANDO



Ah! Se soubesses quanto bem me faz
quando me buscas, me sorri, me quer...
Quando me tens e, mesmo assim, quer mais
ao envolver-me, lânguida mulher.

Ah! Se soubesses quanto bem existe
nesse desejo róseo nos teus seios...
nessa risada alçando um homem triste...
o teu beijinho ao fim de cada mail...

Esse teu dengo, teu olhar dourado
esse mistério sob a seda escura
esse teu medo de dizer-me: “amado”

e as brincadeiras feitas no teclado
— de gato e rato, sensações tão puras —
ainda vão deixar-me avariado.

(2007)