sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O APANHADOR DE CANÇÕES



Ao poeta Sidnei Olivio
e ao poeta das artes visuais  William Menkes



As canções estão soltas por aí – diz o compositor pop.
Para apanhá-las, devo me soltar também, como ave predadora.
“O Apanhador de Canções” parece nome de filme. Mas é apenas uma intenção.  Aspiração de quem não sabe compor mas se vê compositor.
Preciso inventar um puçá que apanhe mínimas, semínimas e outros sinais com jeito de borboleta.
*   *   *
Creia: já tive medo de inventar canções, cantarolar alguma novidade. Medo de esquecer, desperdiçar inspiração.
Pois para eu, fazer canção é algo muito raro e sublime. Hoje tenho certeza que não tenho esse pendor. Quanto mais me convenci disto, mais perdi o medo de assobiar invencionices musicais. E não é que, depois disso, as canções começaram a aparecer? Ruins, muito ruins – como meus primeiros poemas. Esse é o meu consolo: talvez melhorem.
13/9/2005
*   *   *
O pianinho eletrônico de Mariana dormiu por dez anos. Ontem coloquei pilha nova. O sono era profundo mas consegui acordá-lo. Agora torço para que desperte em mim emoções que redundem em alguma composição.  Porque a que penso que consegui fazer ontem, essa esqueci dez minutos depois. Pareceu-me bonita, a danada.
20/9/2005
*   *   *
Hoje é início da primavera no hemisfério sul. Porque a Terra já cursou ¾ da sua trajetória, os sabiás cantam enlouquecidamente e esse vento chato não para de assobiar, pressinto que nos próximos dias colherei alguma canção. Não por causa das flores – mero detalhe neste contexto sazonal –, mas pelo princípio do fim do ano, quando me angustio ao enxergar vazios dentro de mim.
Colher alguma canção... Assim seja!, pois há dias que não consigo colher nada que preste desse teclado sovina. Nenhuma palavra, nenhuma frase que mereça o consumo de alguns nanogramas de memória.
23/9/2005
*   *   *
Depois que se aprende que o andamento da música deriva do pulsar do coração, atente-se para o emocional. Dizem que em dias de fossa canções são pegas mais facilmente.
*   *   *
Em dias de chuva notas espargem de pingos, respingos e enxurradas. Uma sinfonia. Aquática.
*   *   *
Quanto mais tento compor, mais percebo que não sirvo nem para crítico. Falta-me acidez.
24/9/2005
*   *   *
Ops, há mais de 40 dias não venho aqui nesse muro de lamentações de quem não sabe compor. A novidade é que eu e Marco Antonio ganhamos um festival local com o xote nordestino “Sabiá Laranjeira”. Como apanhador de sabiás ou de laranjas devo ser ótimo ou, pelo menos, eficiente. Mas como apanhador de canções... Não é que, uma semana depois, sequer classifiquei o reggae “Amazônia” no Festival Universitário da UFMS? Eram apenas 72 músicas para classificar 22...
10/11/2005









Autor: William Menkes
Título: Sol
Material utilizado: Massa PVA Acrílica e tinta a óleo
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 50 cm x 30 cm
Acervo: Eliana da Silva Franco

4 comentários:

  1. A inspiração vem de onde?
    Pergunta para mim alguém
    Repondo talvez de longe
    De avião barco ou bonde?
    Do canto da cotovia
    Vem do luar do sertão
    Vem de uma noite fria
    Vem olha só quem diria
    Vem pelo raio e trovão

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. De onde vem a inspiração
      ― respondo à compositora
      Do Pantanal, a cantora:
      Nunca vem de supetão!
      Sei que, em mim, toda canção
      Vem de coisas pequeninas
      Como um grilo na campina...
      Ou, então, de um temporal,
      Raios, aves, Pantanal
      Refletidos na retina...

      Às vezes, os meus destinos
      São os cheiros da fazenda...
      Os sabores da merenda
      Dos meus tempos de menino.
      Quase nunca é repentino
      Meu desejo de criar:
      Mesmo uma canção de ninar,
      Preciso correr atrás
      Da inspiração ― muito mais
      Do que pode imaginar!

      Excluir
  2. Precisamos compor mais, companheiro Eduardo! Apareça "pressas" bandas.
    Abração.

    ResponderExcluir