domingo, 29 de abril de 2012

SE É VERDADE QUE TUDO É RELATIVO, NÃO EXISTE VERDADE ABSOLUTA



Especialmente para Mayara Almeida de Barros e o seu/nosso 
Tereré Filosófico, Casa da Ciência (Campo Grande, MS)




Quando a luz é encurvada pela massa
De um planeta de grande densidade,
Gigantesco, a curva, na verdade
É um atalho do tempo que ali passa.
A matéria é somente uma carcaça
Da energia ― morada resoluta.
Todo ser vive à custa da labuta
De fazer, da energia, um ente vivo. 
Se é verdade que tudo é relativo
Não existe verdade absoluta.

Alterando a função velocidade,
Em verdade, é o tempo que se altera.
É maior ou menor a nossa espera
Quão maior ou menor a ansiedade.
Vendo a presa escapar de outro ser vivo,
São dois tempos distintos em disputa.
Nenhum deles venceu/perdeu a luta:
Um dos tempos tornou-se intempestivo. 
Se é verdade que tudo é relativo
Não existe verdade absoluta.

Um mosquito, tão frágil e magricela,
Com sua tromba derruba o samurai.
Na verdade, é um micróbio o que contrai
E, por dentro, lhe mói, lhe desmantela.
Inimigo invisível, impõe sequelas
Sem ao menos travar uma só luta. 
O micróbio, sem tino e força bruta,
A seu modo é fortão, superlativo! 
Se é verdade que tudo é relativo
Não existe verdade absoluta.

Quem galopa? Quem cria estes versos? 
Eu-pessoa? O artista? Um personagem?
Ou serão partes da totalidade
Da cultura, dos povos... Do universo?
Neste caldo de dúvidas imerso,
Não existe uma estética impoluta:
A pureza é uma terra devoluta ―
Sem querer, só... ideias reavivo. 
Se é verdade que tudo é relativo
Não existe verdade absoluta.


(Dezembro de 2005)


JOGANDO CONVERSA FORA (causos do Pantanal numa roda de tereré)




I - PARA TOMAR TERERÉ



Uma guampa artesanal,
água bem fria, erva-mate,
um tubinho de metal
e um amistoso debate.



II - ACREDITE SE QUISER

Sem querer, quando descia
o Miranda de chalana
escutei um desafio
entre dois peões bacanas
que tomavam tereré
sem tirar uma só pestana.
Vou contar só um tiquinho
do que ouvi em uma semana.
Leia e veja se é real
ou se é história insana:




— Enfrentei uma onça parda
perto do paratudal.
Eu nem queria mais briga
com o coitado do animal!
Rolamos a noite inteira
pelo vasto capinzal
que a parda ficou pintada
de tanto que passou mal.
Dei tantos tapas que a dita
foi-se dizendo... “miaaaaau!”.

— Comigo foi diferente:
à noite, montando guarda,
vi uma grande onça-pintada
vindo em minha retaguarda.
Num salto, me deu um tapa
que entortou minha espingarda.
Mas, como não sou do tipo
que logo se acovarda,
mordi tanto o rabo dela,
que a bichana ficou parda!

— Lá no capão onde moro
a terra é tão adubada
que — acredite — a melancia
é, toda, vitaminada.
Uva boa eu dou pros porcos
(vez em quando é rejeitada).
Laranja-azeda, a da terra,
de tão doce é enjoada.
O milho engasga as galinhas
e o coqueiro dá cocada.

— Já comigo é diferente.
Moro num ermo lugar
tão seco que nem vapor
o chão consegue sugar!
Nessa terra sem palmeiras
não canta nem sabiá.
Minha terra é tão fraquinha
que “em si plantando” não dá
nem um pé de tiririca
para a história contar.

— Saiba que o Morro do Azeite
tem esse nome porque
na Guerra do Paraguai,
para não esmorecer,
uma tropa da Bahia
trouxe tonéis de dendê?!
Fritou tanto acarajé
que fez o morro crescer.
De tanto azeite no morro,
ninguém sobe se chover...

— Essa história não é nada!
Urucum, a morraria
vermelha de Corumbá,
tem esse nome porque,
logo após a pescaria,
“seus” soldados do Azeite
(que, apressados, esqueceram
o corante na Bahia)
iam ao morro “colorau”
temperar as iguarias.

             *  *  *

— Acredite se quiser,
meu predileto compadre!,
É mais difícil mentir
que mostrar a realidade.
E para não estragar
nossa tão rara amizade
vamos parar por aqui
bem antes que seja tarde.
Nunca vi oitenta versos
sem um pingo de verdade!

— Isso mesmo, companheiro!
Chega desta brincadeira.
E antes que este tereré
dê a volta derradeira
e fique tão fraco quanto
minha terra sem palmeiras,
vou encerrar a conversa
com uma frase verdadeira:
nunca vi noventa versos
sobre noventa besteiras!


domingo, 15 de abril de 2012

REPARANDO MELHOR, A NATUREZA, DE ALGUM MODO, RESPIRA POESIA



Vendo o esterco, ninguém lhe dá valor
Se não tem visão clara do amanhã.
Bactérias — gigantes sendo anãs —
Reelaboram a matéria no calor.
Adubada, a raiz põe-se ao labor,
Faz crescer a roseira com anemia.
É no esterco que tudo principia
Dando à flor a cheirosa sutileza.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Vendo o esterco, tem gente que vomita
Porque nele não vê utilidade.
É o esterco promessa de bondade
Junto à microbiota que o habita.
Ao se ver transbordando uma marmita
Dá na gente uma imensa alegria:
Os micróbios transformam a “porcaria”
Em fartura, enfeitando a nossa mesa.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Quem já viu caracóis escorregando
Pelos troncos arfantes, sonolentos
E esperou que marcassem o chão — visguentos —,
Nem notou todo o tempo lhe marcando.
Esperar sem saber que está esperando,
Respirando o forjar da calmaria...
Imagino que isso bastaria
Pra inspirar, dos moluscos, a nobreza.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

O poeta que tem no nome o barro,
Pescador de palavras, caracóis
Respirando as ausências dos paióis
Sobre o pó dos quintais nos quais me esbarro.
Na firmeza do verbo é que me agarro.
Não com a força que o mestre agarraria
Pois retira o calor da lama fria...
Pois que extrai os pulsares da aspereza.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Nos jardins submersos de Bonito
Algas, lama, dourados, grandes folhas,
Caramujos e musgos... cospem bolhas. 
Naturais, são aquários infinitos.
Mundos d’água gasosa — e inauditos —
Nos inspiram poemas, fantasias.
Respirar dentro d’água é alegria
Para os que vivem imersos na pureza.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Quando os gases se entregam, inodoros,
Ao propósito máximo de um ser,
Oferecem a chama pra poder
Produzir descendentes vencedores.
Se o invisível transmuta-se nas cores
Quando a luz faz brotar policromias
Vegetais sustentando a zoologia,
Toda a vida animal se vê acesa.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Turbilhões de suspiros leva o vento
Pela noite, varrendo o continente.
São lamentos que exala o solo quente
No processo de desaquecimento.
Para o mar de incerteza — o pensamento —
Dissolver-se no sal da maresia
Pra se cristalizar na cantoria,
No galope da aérea correnteza.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Num galope os alísios crespam a areia
Retornando às entranhas da restinga
Revirando a folhagem da caatinga
Deixam livres os gases sob as teias.
Neste ir e voltar fica mais cheia
A barriga do ar que faz folia
E, que em vez de engordar mais, quem diria,
Quando quente é a essência da leveza.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Frente fria é, no chão, intempestiva,
É matéria gasosa viajante.
Quente brisa na altura estonteante
É o bafejo da lida coletiva.
Trocam os gases de toda a massa viva.
Ao fazerem, no céu, estripulias,
Reciclando a matéria e a energia,
Essas duas confirmam uma certeza:
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Quão poético o mar, os seus corais... 
Inspirando sonetos e canções
Nas Pessoas, Caymmis e Camões,
Castro Alves, Vinícius de Moraes.
Que seria do mar de minerais
Se não fosse a micro-refinaria
Que respira, no mangue, a geologia
Sulfurosa biota à lama presa?
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

A coxia quebrando o vento, o enfado
Na Bahia de jeitos tão diversos
Horizontes longínquos e dispersos
Das planícies disformes de Brumado...
Avistando, inspirado, embasbacado
A colina pequena — a tal coxia —,
O poeta Caetano assim diria:
“Tudo é lindo, mais lindo que a lindeza.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia...
                                                           [ou não]”



No horizonte se avista, deslumbrante,
A chapada arenítica azulada.
Imagina-se, ao fim de uma escalada
Ver minérios azuis, irradiantes.
Ao subi-la, percebe-se, ofegante
Um prodígio da microbiologia:
São os líquens, profícua parceria
Respirando, tingindo as redondezas...
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Vinda a morte, eis que a força do calor
É deveras sentida pela ausência
Dele próprio: o calor é a essência
Do viver. É o termômetro do amor.
Quem respira nem pensa: dá calor.
Sem calor, toda a carne expiraria!
E não é a ausência, mas a fria
Mão inábil, a fonte da tristeza.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

E, por fim, há no verso marcação,
Há um ritmo, um pulsar melodioso.   
É um corpo de texto harmonioso
Que provém do bater de um coração.
E, se pulsa, então há respiração.
Sendo verso sem pé não correria.
Sendo corpo, sem ar pereceria
No papel esquecido sobre a mesa.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Vendo o esterco curtindo sob o céu
Vê-se o fim, vê-se meio e o princípio
O infinito, o vivido — o particípio —,
O passado e o futuro do papel.
Na batida inspirada do cordel
O universo — todinho — pulsaria
Pelos versos da linda cantoria
(Sendo o próprio: Palavra, Luz, Beleza).
            Reparando melhor... a natureza,
            Ofegante, respira poesia.



(do livro “O Casamento dos Buritis e outros cordéis”. Sterna, 2005) 

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Você sabia?

Este “Reparando melhor” e o cordel “Se é verdade que tudo é relativo” (clique aqui para conhecê-lo), foram construídos segundo a modalidade martelo agalopado, uma forma fixa de composição poética típica da Literatura de Cordel.

O martelo agalopado apresenta versos metrificados com 10 sílabas, mas com acentuação obrigatória na terceira, sexta e décima sílabas (são essas tônicas que dão o efeito “galope”, como grifado a seguir: É no esterco que tudo principia / Dando à flor a cheirosa sutileza); as estrofes têm 10 versos e as rimas são fixas (geralmente, o esquema é ABBAACCDDC). Especialistas afirmam que o termo “martelo”, neste caso, nada tem a ver com a ferramenta, mas com a pessoa que estabeleceu o decassílabo na literatura, o professor de literatura francês  Jaime Pedro Martelo (1665-1727).

A graça de escrever ou cantar um martelo agalopado é justamente dizer algo interessante dentro desse esquema rígido, uma tradição herdada da literatura oral europeia. Não é à toa que as pelejas entre os repentistas são chamadas de desafios. Se escrever um martelo já é difícil, imagina improvisar, diante do desafiante e de uma plateia atenta! É por isso que tanto admiro esses artistas populares.

Saiba mais:



PRS
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Obtenha gratuitamente, para impressão em formato A4, a íntegra desse cordel e dezenas de sugestões para o desenvolvimento de atividades em sala de aula, com ênfase no ensino de ciências/.biologia. 


Licença Creative Commons
O trabalho REPARANDO MELHOR, A NATUREZA, DE ALGUM MODO, RESPIRA POESIA de Paulo Robson de Souza foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

OUTRO OLHAR


Para Maria Eugênia Carvalho Amaral


Flores     violetas:
              ultra
              sentidas
              cores –
              por insetos.

Para além do violeta:
luzes negras.
Cores invisíveis.

Composturas:
olhos contumazes,
pólen e néctar encontrados.

Linhas amarelas, pétalas lilases –
pista de pouso
de insetos vorazes
que a ecóloga revelou.


(esboço em  9.8.2010)


Utricularia blanchetti, Pico das Almas, Chapada Diamantina (Ba)

terça-feira, 3 de abril de 2012

CÓRREGOS SONHAM MARES



(Fac-símile da página 32 do livro Síntese de 
Poesia. Paulo Robson de Souza, Editora UFMS, 2006)

NO JARDIM DE SHIROMA SAN








(Fac-símile da página 58 do livro Síntese de 
Poesia. Paulo Robson de Souza, Editora UFMS, 2006)

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Haicais (haikus) dedicados ao sr. Guensei Shiroma e o seu microjardim, situado à rua Bariri, 40, Monte Líbano, Campo Grande. Para ver fotos dos seus bonsais, orquídeas e cia, clique aqui:


NOVE-HORAS


 
(Fac-símile da página 11 do livro Síntese de 
Poesia. Paulo Robson de Souza, Editora UFMS, 2006)

FOTOSSÍNTESE






(Fac-símile da página 90 do livro Síntese de 
Poesia. Paulo Robson de Souza, Editora UFMS, 2006)

FOLHAS SECAS




(Fac-símile da página 86 do livro Síntese de Poesia
Paulo Robson de Souza, Editora UFMS, 2006)