quinta-feira, 1 de novembro de 2012

OS REIS DO PEDAÇO




Para Rubem Alves



Era uma manhã das de sempre
num capão do Pantanal
ou talvez na Bodoquena...
– não, não sei bem o local.
Era uma manhã confusa:
meio rara, algo banal.

O sol se partia em mil
nas gotas frescas do orvalho
as árvores bocejavam
balançando os longos galhos
a taboquinha era flauta
e os grilos eram chocalho.

Era farta primavera:
abelhas pra todo lado,
frutos davam a sua carne,
flores jorravam melado...
Troncos cuspiam filhotes:
patinhos pretos, dourados.


Como diria o Chicó
que mora dentro de mim,

não sei bem como é que foi,
eu só sei que foi assim

que o Caburé exclamou
dentro de um alto angelim:


– Ai, que bom espreguiçar,
sestear depois que caço...
Morar numa cobertura
de um tronco, ser um ricaço...
Como é bom, mesmo miudinho,
ser o tal... rei do pedaço.

O Falcão-peregrino retrucou:

Eu sou o dono do pedaço!
Fora! Xô, seu... pigmeu.
Sou letrado, caburé,
no continente europeu.
Olhe bem pras minha garras...
repare que o rei sou eu.

Entra o Pica-pau-rei:

– Eu também tenho direito
sobre essa tosca madeira
pois cheguei aqui primeiro.
Não estou pra brincadeira.
Se vocês quiserem briga,
eu derrubo a mata inteira!


–  Quando nem buraco havia
comecei a trabalhar
nessa vil madeira morta
para o oco iniciar.
Sou do desenho animado,
mereço me instalar.


– Eu tenho um bico alvinegro,
a mais vermelha das penas,
lindos olhos, asas verdes...
Sou artista de cinema!
O buraco é meu, pois sou
a dona da Bodoquena.


– E daí, qual é o problema?
Parem de falar besteira.
Sou a maior e a mais linda
das araras brasileiras.
Trago o azul do mar nas penas
e o sol nas minhas olheiras.


– “Peraí”, gente. Qual é?
Esse oco é meu. Tem mais:
antes de 1500
já era o rei dos quintais.
Além disso, eu sou cantiga
do Vinícius de Moraes.


– Alto lá! Êpa! Tem gente!
Eu reformei este ninho.
Botei fora o caburé.
Enxotei o gaviãozinho.
Daqui não saio. Reparem
que eu sou um nobre vizinho.


– Cal-cal-calma lá! Nesse oco
botarei meus dois ovinhos.
Afinal, tenho olhos verdes
neste rosto tão branquinho...
Trago o azul, tenho o dourado
da Seleção Canarinho.


– Chega pra lá, sua amarela!
Cruza de águia! Monstrengo!
Esse oco é meu! Só meu.
Chega de história e de dengo.
Sou o rei dos céus. Mereço
pois sou forte, sou Flamengo.


– Sou o dono do buraco
meu povo amado, minha gente,
pois sou bom de bico, e até
ao comer, planto as  sementes.
Não bastasse isso, inda sou
amigo de ex-presidente.



O urutau que a tudo via
com sua sábia paciência
gritou para a bicharada:
– Que falta de complacência.
Há lugar pra todo mundo
quando se tem consciência!

Com seus olhos semi-abertos
para a luz, bico empinado,
Urutau falou, de um galho,
dormindo meio acordado:
– Essa briga é porque o mundo
está desorganizado.

– Cada qual com seu papel!
Todos têm o seu valor!
Todos são nobres e sábios.
É bonita toda cor!
Não existe tolerância
quando não existe amor.

– Organizando a bagunça:
buriti pra canindé,
pro pica-pau: bocaiuva;
angico pro caburé.
E pra grande araraúna,
manduvi será chalé.

– E se o tronco for o mesmo
disputado por vocês
numa mesma primavera,
é preciso sensatez.
Se não chegou a sua hora,
então, que espere a sua vez.

– Ou então, façam o seguinte:
quando o tempo for passando,
de pata em pata – ou de bico –,
que o ninho vá se moldando
segundo a necessidade,
de acordo com seu tamanho:

– Vem, primeiro, o pica-pau;
em seguida o tronco ampara
a nobre maracanã...
Tantos caberão, tomara:
o tucano, o urubu
e, por fim, a grande arara.

– Vamos combinar uma coisa?
Façam a reprodução
em períodos separados,
com farta alimentação...
Cada qual no próprio tempo...
Troncos à disposição.

Em meio a tantos doutores
de olhos grandes, acurados,
foi o urutau quem viu,
estando de olhos fechados:
– Há lugar pra todo mundo
num mundo civilizado!

– Discriminar é julgar,
antes que o tempo revele,
a história de cada um
e a cultura que se expele.
Não se conhece por fora
o que está dentro da pele.

– Há lugar pra todo mundo:
branco, preto, azul, dourado...
Sempre haverá um cantinho
no ambiente equilibrado.
Há lugar quando, pra todos,
direitos são respeitados.

Vendo, enfim, que a boba briga
encontrou um bom final,
o tal “pássaro-fantasma”
dos índios, o urutau,
voltou a dormir, esguio,
disfarçando-se de...
        pau.


•  •  •


Como diria o Chicó
que mora dentro de mim,
não sei bem como é que foi,
eu só sei que foi assim
que uma corriqueira história
encontrou seu próprio
                                                        fim.


Os Reis do Pedaço - Detalhe de aquarela de Ligia Zeolla Vieira

______________

Notas: 

Clique no nome da ave para obter informações sobre sua biologia diretamente do WikiAves (inclusive fotos e sons).

Cordel originalmente publicado no livro Poesia Animal (2003), com Sidnei Olivio 


Apresentado em 13 escolas de Campo Grande por atores amadores (alunos dos cursos de Ciências Biológicas, Artes e Pedagogia/UFMS, sob direção de Paulo Paes), dentro do projeto A Poesia É animal na Rede Estadual! (2004),  realizado com apoio do FIC/MS.

Excertos publicados na Ciência Hoje das Crianças, n°  214 (especial Biodiversidade), julho de 2010. Ilustrações de Rogério Coelho.

4 comentários:

  1. Grato por acolher este trabalho, Alessandro! Grande abraço.

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  2. Lindo lindo!!!
    Um abraço da turma de Pedagogia UFMS/CPAQ!

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    1. Grato, Kelvia! Foi uma emoção rara a que senti ao ler este poema para a sua turma! Inspirador! Abraço.

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