sábado, 23 de junho de 2018

O CÃO SEM PLUMAS DE DEBORAH E JOÃO




Para Deborah Colker e companhia; para Yara Medeiros;
em memória da professora
Tania Mara Simões do Carmo
(que me ensinou os caminhos do manguezal).





Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

"O Cão sem Plumas" (1950),
de João Cabral de Melo Neto










I.           Nascente
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Rio nascido é coisa sonhada pela chuva;
gestado pelo chão morno que abriga radículas púberes
(pois que solo glabro não rebenta).
Rio que pulsa vem de olhos
plantados no palco e nas serranias.
Rio que pulsa brota de olhos opacos
(luz em caminho contrário).

No palco, sombra e silêncio lutam com seus opostos;
harmonizam e se alternam. Dançam a vida; o que da vida
sobrou.

Treze corpos treze almas nascem do pó primordial
feito mamulengos assoprados pelo que se cria.
E descem o proto rio. E se tornam rio
(sonhando desembocaduras).

Tristura não tem cor; gastura é som extraviado
que me arrepia os dentes sugere o espetáculo
que me peja de rios jururus.


II.         Amphi
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Dança e luz em movimento.
Juntos: imagem plana e matéria que ocupa espaços.

Planuras se curvam sobre corpos eles próprios, tela e
anteparo.

Jias percorrem o palco da vida em busca d’água.
Diálogo ora surdo, ora ensurdecedor
de jias, cururus; luzes, sons; movimentos e matéria;
lama e alvuras;
tábuas e tablado.

A maestria do cinemato-
gráfico
e a exatidão do
corpo
sedimentar.


III.       ’Y
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A artéria da terra é, também,
caminho de gentes sobre ygaras.
Outrora: vivenda de capivaras
(kapibara ‘y-pe
sob moribundo tronco tupi).

Fala por si o rio,
gota a gota esvaindo-se
nos detritos nele acumulados.

Clama(m).


IV.      Estio
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Ante a aridez do ar
(rio seco no céu),
a epiderme da terra
e a pele cafuza
padecidas; craqueladas.

Mato branco de nascente é quase pó
e a gente que nele vive chora a falta de rio
por nascer.


V.        Queima
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O inadmissível:
a morte de um rio; a pele descamada se rasgando
em meio ao verde frescor.

O inconcebível:
calcinação da própria vida; o aborto da cor.

Um espectro (da gente trincada) mirando a cacimba
sem reflexo, sem eco,
sem água azul.


VI.      Trama
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A folha a palha a trama
o homem-palha
a fuligem...

Canavial há de ser alegoria para treliças que confinam

o olhar.


VII.             Retrocessão
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Acaso e descaso largados na ygara
descem o rio rumo ao salobro lugar.

Sonho denso
do que não suportou

ser homem mastigado; sonho desistido.


VIII.           Uçá
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Larvas famintas pedem estuário: sentimento vário,
querem ser caranguejo. Uçás grávidos querem ser mar.

Homem-caranguejo-uçá
cada vez mais
anda para trás.

Dentro do caçuá:
incontinência da música; feitura da própria prisão.

Tempo para trás.

Na tela grande, Assis presente(s).
Assaz competente(s)
em cuidar e
retroagir.


IX.       Mangue
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Rhizophora é cortina do que não se vê e daquele que vê.
Rhizophora mangle: copas em palafitas
de cerne duro, vermelho e firme  
escora de aspirações.

É fio que entrelaça
vidas: craca, caranguejo, peixe, camarão,
gente e a matéria borbulhante que os formou.




Lama fértil é massa podre e seca,
sem o mangue.
Mas a mordaça
imposta ao rio
mata a planta, mata a teia, mata o homem que espreita.

A casca sangra.
Olhos divisam.


X.         Chama
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Caranguejos de longas, espadadas puãs
(com elas) chamam fêmeas, demarcam toca.

Chamam a maré que não vem, fluxo interrompido por
matacães.

Chama-marés batem no tablado o ritmo do
desespero.


XI.       Pena
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Garças encardidas sobre troncos cansados de mirar o nada.

Nessa luta inglória,
garças são o chão:
são as árvores:
plumas das árvores:
pena do cão.

Ignorância
é a palavra que resta do aniquilamento.


XII.                   Claustro
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Rewind:
o caçuá-palafita;
o sulfeto da lama impregnando a pele;
o molambo;
o desejo preso na própria armadilha.

De novo: o mocambo perscrutado
por um homem-caranguejo;
homem mastigado.

Homem que se repete em todos os pobres
cantos do mundo.


XIII.            Angústia
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Um barco, foi o que vi. Um barco a qualificar;
a carregar o degredo
(a lama na face: máscara ou armadura?).

Porque a foz
é a geografia de costas para o continente.

No palco, um fio de luz da esperança
de Colker. De João. De Assis. De Lirinha e Jorge. Do Carmo. De mim.

De todos os rios do mundo.

Porque rio é coisa sonhada pela chuva.


Paulo Robson de Souza

(da série Poesia Todo Dia 2018)



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