quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

MORTE SERENA



Deixe o terminal morrer!
Pra que tanto sofrimento?
Nesta vida existe um ciclo
a ser cumprido a contento.
Não há por que prorrogar
a data de vencimento.

Todos temos nosso tempo,
um prazo de validade.
Nosso tempo de existência
não depende, não, da idade!
E o anjo bom da velhice
bem reforça essa verdade.

Em verdade, o que acontece
é que, logo após nascer,
já começa o tique-taque
do relógio do viver.
Cada segundo que passa
lembra a hora de morrer.

Quando for chegando a hora
da partida natural,
aceitemos de bom grado,
com resignação total,
se nossa curta existência
não foi à toa, banal.

Quisera ter sido digno
de ter uma existência bela,
cheia de realizações,
de combates às mazelas,
abrindo portas bem largas...
Abrindo ao sol as janelas...

Quando, ao fim, tiver dobrando
o “Cabo da Boa Esperança”,
quero sorrir, bem tranquilo,
bem velhinho, bem criança...
e dizer: pra que chorar?
Não é melhor uma festança?

Sim!, não se deve chorar.
Ao confessar que vivi ―
como bem viveu Neruda ―,
o motivo é para rir
porque não é todo dia
que a bonança nos sorri.

Partir com dignidade,
dar razão à natureza
por saber que a eternidade
só se vive na Beleza.
O imortal sofreria
de tanto tédio e tristeza,

ao ver que a graça da morte ―
da boa morte, diria ―
é haver a sucessão
de vivências fugidias,
engendrar novas histórias,
germinar filosofias.

A Terra seria um inferno
se fôssemos imortais:
não haveria comida,
mas filas descomunais
de imortais mortos de fome
por haver gente demais.

Além disso, se insistimos
na boa morte adiar,
no fundo o que mais queremos
é mais um tempo ganhar,
dizer o que não dissemos
ou não quisemos falar.

É egoísmo querer
que um corpo enfermo conforte
nossas angústias latentes
que viriam no post mortem.
Bem fez o Papa em não ir
ao hospital, a pedir
que adiassem a sua morte ―

falo aqui da boa morte,
natural, sem desrespeito,
o descanso merecido
para quem não tem mais jeito.
Falo, enfim, do fim honroso
pra quem vegeta num leito.

Mesmo sem acreditar
na vida espiritual,
na nossa reencarnação
ou na existência do umbral,
despedir-se sem ter medo
nem do Juízo Final.

Despedir-se em paz e crente
que conheceu paraísos,
que teve o apoio de anjos
de carne e osso e sorrisos,
que traçou o seu destino
e fez o próprio juízo.

É a morte natural
a sucessão da velhice.
Implorar milagres médicos
nesses casos é tolice.
Chame, então, um psicólogo
ante uma grande sandice.

Sendo um terminal, quisera
escolher o que ora digo:
morrer em casa, feliz,
de bem com a vida e comigo,
tendo a morte como um fim
natural ― não um castigo ―,
ao lado dos meus parentes,
dos meus mais caros amigos...

Estando desenganado,
rogar por serenidade ―
que meu ciclo se complete
dando oportunidade
para as novas gerações,
renovando a Humanidade.

E, sorrindo, relembrar
dos meus melhores momentos,
e dar “tchau” ainda dizendo
aos presentes ao evento
que “eutanásia” é essa morte
serena, sem sofrimento.



(Cordel de abril de 2005;
Foto: Parque das Nações Indígenas, Campo Grande, 2009)

18 comentários:

  1. Poeta Paulo Robson: Gostei muito do seu blog. O nome, metaforicamente poético, foi muito bem escolhido e explicado; nele, por certo, teremos nossas almas e emoções colhidas e acolhidas. Sucesso. Sylvia Cesco

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    1. Olá Poeta do Cerrado,

      Grato pelo carinho. Sucesso para você também, Sylvia; vida longa à sua poesia com cheiro de guavirais em flor e frutos brilhantes (de tanto mel), apetitosos, pendentes...

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  2. paulinho
    morrer assim é até covardia, pois deve ser bom...

    temos sim q aprender com este ciclo q envolve a vida e a morte. partilho do seu poema

    carinhos
    *

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    1. Pois é, Mimi, até na morte buscamos a utopia...
      Grato - sempre - por sua atenção carinhosa.

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  3. Que texto interessante! O que não surpreende, vindo de você. É um poema educativo e filosófico, faz a gente refletir sobre as similitudes e as contradições do binômio viver/morrer, aliás dois termos aparentemente paradoxais, mas indissoluvelmente ligados, como deixa bem claro. Você soube construir o ritmo dos versos, a cadência...Enfim, uma construção poética, cujo tema desperta muitas discussões.
    Parabéns! Um abraço da amiga, Albana

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    1. Querida Albana, que bom receber sua visita! Grato pela consideração e atenção a este cordel.

      PR

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  4. Parabéns pelo texto, cada vez admiro mais a sua poesia,sinceramente queria morrer assim. Grande abraço, Alessandro

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    1. Prezado biólogo e amigo Alessandro, grato pelas suas palavras de incentivo. Grande abraço.

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  5. Belíssimo poema, não sabia que você é um poeta! Adorei o texto inteiro, principalmente o trecho:
    "filas descomunais
    de imortais mortos de fome
    por haver gente demais"

    Já há mortos de fome e filas descomunais por haver gente demais. O maior problema da humanidade é gente demais, gente demais para escolas, para universidades, para hospitais, para emprego, para alimentar (entre outros)! O sistema não cresce junto com a população para poder fornecer a todos os itens mínimos necessários que um ser humano precisa. Além disso, já há estudos que indicam que o nosso planeta está na capacidade máxima para produção agrícola e a população continua crescendo..

    "Cada casal deve ter dois filhos no máximo
    Fica aqui o meu recado"

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    1. Oi Carla, grato pela atenção ao blog. Pois é, comecei a escrever com uns 16 anos, mas geralmente com intervalos gigantescos entre as fases. Não fosse a poesia, teria sucumbido ao estresse e à minha ansiedade - sem contar que literalmente vivi de poesia, quando vendia livros e folhetos na porta do Restaurante Universitário da UFES, quando fazia minha graduação (em breve postarei aqui uns desses trabalhos).

      Sobre o poema... É um tema algo polêmico, cada qual com sua opinião, sua religião, às vezes seus dogmas... Procurarei postar os diferentes pontos de vista que forem aparecendo, sem questioná-los.

      Abraço.

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  6. Arlindo de Figueiredo Beda6 de fevereiro de 2012 18:42

    Olá querido amigo e colega biólogo Paulinho, bom baihano da Bahia mesmo. Que bela forma de ver e de expressar a sucessão natural das gerações! a "morte serena" a "boa morte" e em cordel! o que não nega a sua origem nordestina. Quero lhe dizer que compactuo com o seu pensamento, penso que o Juiz tem que apitar nos 45' sem prorrogação e nem cobrança de pênaltis, grande abraço.

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    1. Olá Beda, você sabe que desde sempre admiro o seu trabalho de garimpagem nos cerrados, nos pantanais e furnas de Aquidauana, em busca de joias preciosas da Evolução que se manifestam na forma de anfíbios e serpentes... Graças ao seu trabalho, ao do Masao Uetanabaro e tantos outros herpetólogos, temos a oportunidade de conhecê-las e admirá-las, de dar graças a Deus por existirem.

      E grato por publicar sua opinião sobre a morte... O que me preocupa nessa história é que há casos em que terceirizam o ritual de despedida do ente querido, por medo ou comodismo transferem essa função para médicos e enfermeiros... Algo desumano, não é mesmo?

      Abração

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  7. Só eu sei do teu caçuá de mim... de nós...de todo mundo.
    e o orgulho que sinto de ser seu AMIGO.
    Parabéns pelo Blog!
    Grande abraço
    com admiração e respeito aos nossos sonhos
    eduardo boaventura

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    1. Eduardo "Negra Menina África" Boaventura Ferreira, meu caro parceiro. Precisamos fazer mais umas músicas, meu caro.
      Abração.

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  8. A cada dia que passa admiro mais a poesia do Prof. Paulo Robson que tenho certeza que posso chama-lo de amigo, DEUS me deu a oportunidade de conhecer uma pessoa maravilhosa como vc, parabéns pelo blog.

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  9. Lindo poema, Paulinho me ajudou neste final de domingo, em que passei tão saudosa. Bj Grande. Obrigada!

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    1. Minha cara amiga e artistíssima Rogéria, que bom que acolheu este meu cordel, um dos que mais gosto, pois tudo o que digo nele é a minha crença pessoal. Grande abraço, e apareça sempre neste meu cafofo.

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